Carlos Vieira e Silva

O mundo é mesmo uma aldeia global onde todos dependemos de todos

A propósito desta pandemia da Covid-19, provocada por um ser tão minúsculo como o vírus SARS-CoV-2, proponho-vos reflectirmos na denúncia de Bruno Canard, virologista, director de pesquisa no CNRS, em Aix-Marseille, que se tem dedicado aos vírus de ARN (ácido ribonucleico) de que fazem parte os coronavirus. Em 2003, quando estudavam o dengue, surgiu a epidemia de SARS (síndrome respiratória aguda grave) e então a União Europeia (UE) lançou grandes programas de investigação para tentar não ser apanhada em casos de emergência, com o objectivo de  se estudarem todos os vírus conhecidos, de forma a antecipar comportamentos e modos de replicação transponíveis para vírus desconhecidos. Em 2004, esta investigação demorada e paciente começou a dar os primeiros resultados, mas, na ausência de novos surtos, a UE começou a reduzir o financiamento e a degradar as condições laborais dos investigadores, nomeadamente em França, com Sarkosy, Hollande e Macron. Os investigadores franceses uniram-se a colegas belgas e holandeses e enviaram, há cinco anos, duas cartas à Comissão Europeia a chamar a atenção para a necessidade de antecipar novos vírus.  Entretanto, surgiu o Zika, mas só agora, com a COVID-19 a assustar a Europa toda é que o poder político se lembrou de voltar a pedir ajuda urgente aos cientistas que ainda não desistiram de prosseguir as pesquisas, ainda que em condições precárias de trabalho. Talvez obtenham resultados, mais cedo do que tarde, mas quantas vidas, entretanto, se perderão?…

 

A maior parte destas pandemias têm como causa principal a destruição acelerada dos habitats, como denuncía no The Nation e no Le Monde Diplomatique deste mês, Sonia Shah. A maioria delas (60%) tem origem animal, sendo mais de dois terços de animais selvagens, embora alguns possam provir de animais domésticos ou de criação. “(…) Com a desflorestação, a urbanização e a industrialização desenfreadas, oferecemos a estes micróbios (que vivem nos animais sem lhes fazer nenhum mal) meios de chegarem até ao corpo humano e de se adaptarem.” Foi ocaso do Ébola, vírus que teve origem em diversas espécies de morcegos, nas zonas da África central e Ocidental que sofreram desflorestações, obrigando os morcegos a irem pendurar-se nas árvores de jardins e de quintais, deixando saliva em frutos ou objectos que facilitam a “passagem da barreira da espécie” para os humanos, podendo tornar-se patogénicos, como acontece também com os mosquitos (dengue). Esta passagem de micróbios dos animais para os humanos também ocorre nos mercados de animais vivos, onde se cruzam espécies que “nunca se teriam cruzado na natureza, enjauladas lado a lado”, como foi o caso, em 2002-2003 do coronavírus responsável pela epidemia da Síndrome Respiratória Aguda Severa (SARS). Mais grave, diz Sonia Shah, é o sistema de criação industrial de animais para a alimentação, amontoados uns sobre os outros, às centenas de milhares, esperando ser conduzidos ao matadouro, como provou o vírus da gripe das aves.

 

Sigam as recomendações da Direcção-Geral de Saúde. Fiquem em casa o mais possível.

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