Carlos Vieira e Castro
A normalização do racismo já chegou ao Primeiro-Ministro (2ª parte)
A extrema-direita organizou uma petição,que recolheu cerca de 15 mil assinaturas, para que o Parlamento votasse a deportação de Mamadou Ba (MB) por este ter chamado “criminoso de guerra” a Marcelino da Mata. Ora, MB apenas reagiu à proposta do líder do CDS que queria que fosse decretado luto nacional e um funeral de Estado para a homenagem que em vida nunca fora prestada àquele militar de origem guineense, fundador dos comandos, promovido a tenente-coronel depois do 25 de Novembro, que se gabava de “cortar os tomates aos turras e enfiar-lhos na boca e ficar ali a vê-los morrer”.
Como disse Vasco Lourenço, capitão de Abril, “Marcelino da Mata foi um combatente destemido, mas cometeu “crimes de guerra. (…) Torná-lo um herói é ofender todos os antigos combatentes”. E conta que ouviu Marcelino da Mata relatar a um major uma operação: “Entrámos na tabanca, deitámos granadas incendiárias para as palhotas, as pessoas fugiam para o centro da tabanca, matámos todos, homens, mulheres, crianças”.
Também o escritor Mário Cláudio que cumpriu a sua comissão no quartel-general em Bissau, como jurista, declarou que foi “muitas vezes encarregado de informar processos-crime e disciplinares, motivados pelo comportamento ilícito e muitas vezes atrozmente delitual” deste militar, mas que apesar da extrema gravidade dos delitos,”os autos acabavam infalivelmente no arquivamento sumário”. É sabido que Marcelino da Mata fuzilava prisioneiros sem julgamento. Como é que o presidente da República e o Chefe do Estado-Maior do Exército prestam homenagem fúnebre a um “criminosos de guerra” que violou a Convenção de Genebra, assassinando inocentes e prisioneiros de guerra, ao serviço do exército da ditadura fascista?
António Costa, ao comparar André Ventura com MB, disse estar preocupado com “a fractura perigosa para a nossa identidade nacional que resulta de uma visão auto-flageladora da História”, parafraseando, assim, o discurso nacional-identitário de saudosistas do salazarismo. O primeiro-ministro devia conhecer o relatório da ONU que identificou o “racismo subtil” em Portugal e criticou o facto de a história do passado colonial ser contada de forma “inexata” nas escolas. E devia cumprir a Constituição de Abril!
13/05/2021

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