Carlos Vieira e Castro

Dar força à esquerda para um governo sem o absolutismo hegemónico do PS

Em 2015 os portugueses estavam fartos do governo do PSD/CDS que foi mais austeritário do que a Troika. Face à disponibilidade do PCP e do BE para uma maioria parlamentar que sustentasse um governo do PS, surgiu o que a direita apelidou, depreciativamente, de “geringonça”, augurando-lhe um vida curta. Afinal, a “geringonça” foi, como lembrou o ministro Pedro Nuno Santos, a solução governativa que mais durou, a seguir aos governos de Cavaco. Bastou um acordo entre os partidos de esquerda para a recuperação de direitos. Mas em 2019 António Costa recusou um acordo escrito proposto pelo Bloco para, na nova legislatura, aumentar o poder de compra dos mais desfavorecidos, recuperar direitos laborais e melhorar os serviços públicos, a começar pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS). O PS optou por negociações pontuais. Resultado: o PS votou mais vezes ao lado do PSD, CDS e IL do que com os partidos de esquerda.

Em 2020 o BE até se absteve no Orçamento Suplementar (conseguindo alguns avanços, como o governo deixar de apoiar empresas sediadas em paraísos fiscais), apesar de reconhecer uma convergência entre PS e PSD na especialidade, contra direitos dos trabalhadores, o que mereceu o voto contra do PCP na votação final. No Orçamento para 2021, seria o BE a votar contra e o PCP a abster-se. Costa passou então a bajular a “lealdade” do PCP, enquanto ia aumentando a tensão com o BE. Calculou que teria o PCP no bolso, mas o partido que este ano comemora cem anos de vida e de luta não se vendeu por um prato de lentilhas. E, em Outubro deste ano,  PCP e BE votaram lado a  lado contra um Orçamento que não prevenia a degradação do SNS, não eliminava leis laborais da Troika e da direita, nem recuperava direitos, como a reposição das indemnizações por despedimento.

Costa apostou, maquiavelicamente, em eleições antecipadas, contando com as fragilidades no PSD e CDS que lhe podiam dar maioria absoluta. Mas as duas últimas sondagens mostram que os portugueses não querem correr esse risco, com o BE a manter-se como 3º partido e o PCP a segurar o seu eleitorado.

Portugal precisa, mais do que uma instável “geringonça”, de uma esquerda forte e plural que dispute o terreno do poder aos interesses instalados.

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