Carlos Vieira e Castro
Racismo e violência policial envergonha Portugal e a PSP

Portugal foi apontado, em Fevereiro de 2018, pelo Comité Europeu para a Prevenção da Tortura e das Penas e Tratamentos Desumanos ou Degradantes do Conselho da Europa, como um dos países da Europa Ocidental com maior número de casos de violência policial, o que é corroborado pela Comissão Europeia Contra o Racismo e a Intolerância e por sucessivos relatórios anuais da Amnistia Internacional. O próprio vice-presidente do maior sindicato de polícias, Manuel Morais, em Maio de 2019, denunciou a existência de racismo no seio da PSP, com a mesma coragem que lhe valeu um processo disciplinar por criticar, já depois de se ter demitido da ASPP, a intervenção do deputado do Chega vestindo uma camisola do movimento Zero, na manifestação de polícias em frente ao Parlamento,
O caso mais recente foi o da cidadã portuguesa e angolana, Cláudia Simões, brutalmente agredida por um polícia, chamado pelo motorista de um autocarro por a filha de 8 anos não ter o passe consigo (apesar de os menores de 13 anos não pagarem bilhete). Vários passageiros testemunharam ao Público que o motorista lançou insultos racistas a Cláudia Simões e a uma senhora brasileira que acompanhava uma menina de 4 anos, também sem o passe. Dentro do carro da polícia, o agente terá voltado a agredi-la com socos na boca e na cara, acompanhados por insultos obscenos e racistas”. A esquadra chamou uma ambulância e disse aos bombeiros que se tinha tratado de “uma queda”, tendo sido transportada para o Hospital Amadora-Sintra, onde foi tratada dos traumatismos na face e na cabeça. O Ministério da Administração Interna já mandou abrir um inquérito. Esperemos que, se os factos descritos pela vítima e pelas testemunhas se comprovarem, que o agente seja expulso da polícia, para bem da Justiça e da própria PSP.
O Sindicato Unificado da Polícia, dirigido por um ex-candidato do Chega e que tem como sócios 16 dos 17 polícias da Esquadra de Alfragide que foram julgados sob a acusação de racismo e tortura contra 6 jovens da Cova da Moura (oito destes agentes foram condenados por agressão e sequestro), publicou um post, com teor racista, em defesa do polícia que se queixou de ter sido mordido na mão, o que já levou a Direcção Nacional da PSP a encaminhar uma queixa para o Ministério Público contra o Sindicato.
Um site de extrema-direita, “Notícias de Viriato”, fundado por um Carlos Abreu, e reproduzida pelo ex-inspector da PJ, Carlos Anjos, comentador na CMTV, atribuiu o assassinato do jovem cabo-verdeano, Giovani, a estudar em Bragança, a um grupo de ciganos, o que já mereceu um comunicado de imprensa de oito associações ciganas a desmentir e a repudiar o aproveitamento político deste crime por “um determinado político da nossa praça” cuja perseguição movida [aos ciganos] é diária”.
Ficou também a saber-se nas últimas semanas dos ataques racistas no futebol distrital, com atletas negros insultados por adeptos e jogadores, o que já levou a Associação de Futebol de Viseu a obrigar os clubes a jogar à porta fechada e a aplicar multas por “comportamentos discriminatórios”. Como disse ao Público, em 27.11.2019, Lilian Thuram, campeão Mundial de Futebol, pela França em 1998, o jogador mais internacional de sempre da selecção francesa, “é preciso que os jogadores brancos intervenham para que as coisas mudem. Quantos já foram às bancadas dizer aos adeptos para pararem com os insultos?”
Não basta ser “não racista” de bancada, temos de ser todos anti-racistas!
Legenda: Fotografias de Cláudia Simões antes e depois das agressões de um agente da Polícia de Segurança Pública
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