Carlos Vieira e Castro
O Cavaquistão Já Foi!

As eleições para o Parlamento Europeu (PE) deram uma vitória ao PS que, no entanto, em relação às europeias de 2014, subiu apenas 73 mil votos. Não foi uma vitória tão significativa como alguns pintaram, uma vez que, apesar da abstenção recorde de 68,6%, foram votar mais 29 mil eleitores do que em 2014, devido ao aumento de 1,2 milhões de novos eleitores inscritos nos cadernos eleitorais. Mas não deixa de ser verdadeiramente significativo que o PSD tenha sido praticamente varrido do mapa eleitoral ao ter maioria de votos apenas no distrito de Vila Real e na Madeira. Até no distrito de Viseu o PSD ficou atrás do PS, incluíndo na capital. O “Cavaquistão” já foi!
O outro grande vencedor destas eleições foi o Bloco de Esquerda que retomou a posição de terceiro partido nacional, ao eleger dois deputados, passando de 149.628 votos em 2014, para 325.548. De realçar que o BE foi o partido que obteve mais votos entre os portugueses que votaram na Noruega e ficou em segundo lugar nos concelhos de Olhão, Portimão e Entroncamento.
No distrito de Viseu, o BE ultrapassou os 10% no concelho de Nelas e ficou lá perto no concelho de Viseu, com 9,78% (2.957 votos), em Mortágua (9,47%) , em Lamego (8,55%), em Carregal do Sal (8,47%) e ainda em Tondela e Santa Comba Dão, com pouco mais de 8%.
Se compararmos estes resultados com os das eleições europeias de 2009, quando o BE elegeu 3 eurodeputados, verificamos que, ainda que a percentagem possa ter sido menor, o número de votos foi então superior, como aconteceu, por exemplo, em Lamego (mais 110 votos), em Tondela (mais 102 votos), em Nelas (mais 84), e em Carregal (mais 20 votos). No concelho de Viseu, em 2009, o BE obteve até uma percentagem maior, 11,18% (acima da média nacional) com 3.811 votos, ou seja, mais 854 votos do que agora. Claro que ninguém é dono dos votos, logo, não há tecto eleitoral para nenhum partido. Mas, como estes números demonstram, ao BE basta recuperar eleitores para crescer muito mais no distrito de Viseu, o que, certamente, somado à crescente implantação da sua organização em todos os distritos do interior, acontecerá já em Outubro, nas legislativas.
Há por aí quem tenha comentado que este bom resultado do BE se deveu apenas à “geringonça”, capitaneada por Costa. Se fosse assim, como explicar o resultado negativo da CDU?… É evidente que o Bloco colheu o que semeou. Muitas das virtudes da “geringonça” cabem aos deputados do BE (e da CDU, claro) que colocaram a fasquia à altura da recuperação dos salários e das pensões, contrariando as intensões programáticas do governo do PS. Os eleitores reconheceram a coerência e a capacidade de trabalho de Marisa Matias, bem como dos deputados do BE no parlamento nacional, dos eleitos nas autarquias e dos seus activistas em geral, na defesa dos direitos de quem trabalha, dos reformados e pensionistas, na defesa do ambiente e dos serviços públicos, em particular na Saúde, muitas vezes em confronto com o governo.
Marisa Matias, já em 2011, foi reconhecida, pela revista The Parliament Magazine, como uma das deputadas do PE que mais trabalharam em prol da Saúde, em particular nas doenças crónicas, como a diabetes, saúde mental e Alzheimer, tendo obtido consenso geral dos Estados-Membros com propostas para controlar a venda de medicamentos falsificados que estavam a intoxicar o mercado europeu. Recentemente, a associação ambientalista Zero divulgou um relatório da Rede Europeia de Acção Climática que classificou o trabalho do BE em prol do clima, no PE, com a melhor nota entre os partidos portugueses, “Muito Bom” (84%), tendo o PS ficado com 70% (acima da média do seu grupo no PE) e o PCP com 61,7% (abaixo da média do Grupo da Esquerda Unitária/Aliança Verde Nórdica, que também inclui o BE). Estes três partidos foram classificados como “Defensores” do Clima, enquanto o PSD e o CDS, com 13,5% e 6%, respectivamente, foram os piores, classificados como “Dinossáurios”.
“Pela boca morre o peixe”… e o Rio… com a peixeirada do Rangel. E o Nuno Melo baixou a Crista(s) e a raiva anti-esquerdas “a la Vox”, por ter esquecido de que em Portugal, ao contrário da Espanha, houve um 25 de Abril e uma Constituição progressista, só não aprovada pelo CDS.
O PAN, beneficiando da centralidade da “emergência climática” que está a pôr em risco “Pessoas, Animais e Natureza”, conseguiu eleger um euro-deputado, com 5,08% dos votos. O PS, pela voz de Santos Silva, de Carlos César e do próprio António Costa, não perdeu tempo a cantar serenatas ao partido de André Silva, quem sabe se por ver nele um promissor “queijo limiano” que o livrasse das negociações, por vezes duras, com os partidos à sua esquerda. Mas o PAN não vai poder continuar por muito mais tempo a não se definir ideologicamente, insistindo não ser de “esquerda” nem de “direita”. Não se pode salvar as pessoas da tragédia que nos espera provocada pelas alterações climáticas sem por em causa o sistema económico-financeiro que as provocaram e consequentemente ser anti-capitalista, como a esquerda eco-socialista.
Se tivermos em conta a realidade do distrito de Viseu, comprovada pelas notícias, verificamos que os partidos que têm estado mais activos na defesa do ambiente, são o Bloco de Esquerda e o PEV – Partido Ecologista os Verdes. Na defesa dos animais, o PAN não inventou a roda. O Bloco de Esquerda já há muitos anos que vem abraçando esta causa, com propostas concretas nas assembleias municipais e de freguesia onde tem eleitos, e os seus militantes têm estado activos por todo o país e, em particular, no nosso distrito, na exigência de campanhas de esterilização de animais errantes, da aplicação da lei que não permite o abate de cães e gatos, de melhores condições nos canis e contra os divertimentos à custa do sofrimento dos animais (garraiadas, circos, touradas). Na defesa das pessoas, dos direitos laborais de homens e mulheres, dos pensionistas e dos desempregados, dos trabalhadores em luta, aí encontramos, principalmente, os militantes do PCP e do BE. Mas, as lutas e as causas não têm propriedade. E quanto mais abrangentes melhor. Aqueles que, depois das eleições, acusaram o PAN de ser de direita e votar à direita denotam pouco poder de encaixe democrático e não estão a dizer toda a verdade. É certo que o PAN, em Julho de 2018, absteve-se ao lado da direita na votação na generalidade da proposta do governo que alterou o Código do Trabalho, aprovada apenas com os votos do PS, ao serviço dos grandes empresários, mas André Silva votou na maioria das vezes ao lado da esquerda. Segundo o site Hemiciclo (citado pelo Público de 28.05.2019), o PAN nas votações na A.R. concordou com o PSD em 52% dos diplomas, com o CDS em 55%, com o PS em 60%, com o PCP em 68%, com o PEV em 72% e com o BE em 74%. E também encontrámos o PAN na 1ª Marcha pelos Direitos LGBTI, em Viseu. Quanto mais não seja só por estes dois motivos devemos dar ao PAN o benefício da dúvida. A ver vamos…
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