Carlos Vieira e Castro

Viseu vai ter, de novo, ligação ao comboio

 

Como me ensinou o chefe da Estação de Viseu, o meu amigo Luis Soares, “a experiência [o Passado] é uma lanterna que só ilumina para trás!

Segundo foi anunciado no final do ano passado pelo presidente da Câmara Municipal de Viseu e pelo presidente da Câmara Municipal de Mangualde, já foi decidido pela Comunidade Intermunicipal (CIM) Viseu Dão Lafões a ligação por “shuttle”, um autocarro directo, da Central de Camionagem de Viseu à Estação de Caminhos de Ferro de Mangualde. Esta solução para uma reivindicação dos viseenses com cerca de duas décadas parece “o ovo de Colombo”, mas, como o Jornal do Centro de 28.12.2018 recordava, a propósito desta notícia, eu já a vinha defendendo há mais de uma década.

Levei esta proposta à Assembleia Municipal de Viseu por várias vezes, ao longo dos oito anos dos dois mandatos em que tive a honra de ter sido eleito pelo BE, e chamei a atenção para esta solução facilmente exequível, sempre que os representantes dos restantes partidos, sobretudo do PSD e do PS, recorriam às frequentes picardias e “jogos de passa culpas”, acusando, alternadamente, os governos do “clube adversário” de serem responsáveis por não termos um ramal ferroviário a ligar Viseu à Linha da Beira Alta, ou não terem construído a linha Aveiro-Mangualde, com passagem por Viseu (já objecto de candidatura a financiamento comunitário, mas que depara com a relutância da UE devido a requerer muitas obras de arte – pontes, viadutos, etc.- o que prejudica a relação custo-benefício).

 

Na verdade, quando em 1990 se encerraram duas linhas, a Linha do Dão (inaugurada em 1890), entre Viseu e Santa Comba Dão, onde entroncava na Linha da Beira Alta (inaugurada em 1882), recentemente transformada numa enorme ecovia, e a Linha do Vale do Vouga (concluída em 1914), entre Espinho e Viseu, também já condenada a ciclovia,  a CP manteve a ligação rodoviária à Estação de Mangualde e de Nelas, mas, passado pouco tempo, essas ligações passaram a ser asseguradas apenas pelas empresas de camionagem concessionárias daquelas carreiras, respectivamente a Berrelhas e a Marques, que demoram 45 minutos a chegar ao destino.  Mesmo depois da construção do IP5, a Berrelhas continuou a fazer o percurso pela estrada antiga, via Fagilde,  e sem ligação aos horários dos combóios intercidades. Quem, não tendo viatura própria ou não querendo levar o carro, se sujeita a uma viagem de 45 minutos e ainda a ter de esperar umas horas pela chegada do comboio?…

 

O recorrente queixume de que Viseu é “a única cidade média da Europa continental que não é servida pelo caminho de ferro” serviu para que os nossos “politiqueiros” de trazer por casa (não os chamo de “políticos” para não dar gás à demagogia populista da extrema-direita, conspurcando uma função muito nobre quando exercida com ética e de que todos deviamos ser praticantes, por ser demasiado determinante para a nossa vida individual e colectiva para a deixarmos  entregue a oportunistas, corruptos ou simples inaptos)  andassem a esgrimir com a bandeira do “comboio para Viseu”, da mesma forma que andaram a esbracejar com a  da “universidade pública de raíz” até a bandeira caír por terra esfarrapada e sem sentido, depois de terem desdenhado da instalação de uma unidade orgânica da Universidade de Aveiro, proposta pelo governo de Guterres, com o PSD de Ruas e Almeida Henriques a camuflarem com bairrismo bacoco a defesa dos interesses privados da Universidade Católica e do Piaget. E eu bem avisei de que “mais valia um pássaro na mão…”

Quando Almeida Henriques foi eleito, cheguei a acreditar que o seu aparente ar mais cosmopolita e uma propalada maior abertura ao diálogo fosse sensível à minha proposta, construtiva e exequível a curto-prazo, de uma ligação, no horário dos comboios intercidades, por mini-autocarro,  da Central de Camionagem de Viseu à Estação da CP de Mangualde (17 km, através da A25, em 15 minutos; mais rápido do que ir de Sete Rios a Santa Apolónia). Como também argumentei na Assembleia Municipal, até o avião que faz escala em Viseu, vindo de Bragança, com destino a Lisboa, não aterra no Rossio da capital, mas no aeródromo de Cascais, tendo os passageiros que entrar num shuttle que os leva até aos Restauradores, percurso que, certamente, demorará mais do que aqueles 15 minutos de Viseu a Mangualde. Muitas cidades europeias têm as estações ferroviárias bem mais distantes.

Numa das vezes que abordei este assunto na Assembleia Municipal, Almeida Henriques respondeu-me que esta ligação rodoviária ao combóio só serviria para levar passageiros… e atirou-me esta pergunta: “- Então e as mercadorias?…”; ao que lhe retorqui do meu lugar: “- E as fábricas?…”

 

Na verdade esta solução só está agora em cima da mesa da CIM, porque depois de eu a ter relançado no debate sobre  “Acessibilidades à Região Centro, Rodoviárias e Ferroviárias”, promovido pela PROVISEU, no auditório do Instituto Politécnico de Viseu, em 20.05.2017, com a participação de três engenheiros especialistas em transportes e mobilidade, ela teve a concordância do engº Mário Lopes, professor de Engenharia de Estruturas, Território e Construção do Instituto Superior Técnico, do deputado Hélder Amaral e do presidente da Câmara Municipal de Mangualde, João Azevedo. Almeida Henriques não teve outro remédio senão esquecer-se das objecções que já tinha levantado e aderiu à ideia que acabaria por ser incluída nas conclusões do Debate.

Ficar “à espera do combóio na paragem do autocarro!”, ao contrário do equívoco na canção do Sérgio, pode ser mesmo a solução!

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *