Carlos Vieira e Castro

Novo troço de muralha romana, achado importante para o aprofundamento da história de Viseu

O achado de um troço da muralha romana do Baixo Império, na rotunda de Santo António, durante as obras de requalificação da Rua João Mendes e substituição da tubagem de saneamento da Av. dos Capitães até aquela artéria mais conhecida por “Rua das Bocas” é, seguramente, o mais importante contributo para a clarificação da história da cidade desde que obras do mesmo género na Travessa da Misericórdia, aquando da construção da estação do funicular, em 2009,  puseram a descoberto uma ara com o nome de Viseu no período romano: Vissaium.

Porém, não será uma revelação assim tão surpreendente, uma vez que Jorge Alarcão, em “A cidade romana de Viseu” (CMV, 1989) já tinha delimitado a muralha romana “ao longo da Rua das Bocas ou de João Mendes até ao actual Largo de Santa Cristina”, donde seguiria para poente (…)”.

João Luís Inês Vaz, em “Génese e evolução de um espaço urbano: Viseu das origens à ocupação árabe” (revista Beira Alta, vol. LXVIII e LXIX, 2009), pormenoriza: “No século I, aquando da refundação romana de Viseu, teria sido construída uma muralha mais simbólica que defensiva que teria aumentado a área do anterior povoado (…). No entanto, haveria uma coincidência aproximada com a muralha proto-histórica na encosta virada ao rio Pavia. Assim, começando na porta ocidental da cidade romana, localizada atrás da actual Casa do Adro, que assenta sobre a muralha romana, desceria pela rua Silva Gaio e pela rua dos Loureiros até ao largo Mouzinho de Albuquerque, meteria por uma linha mais ou menos direita até ao actual bairro de D. Maria do Céu Mendes, próximo da igreja de S. Miguel, passaria atrás da Rua das Bocas ou de João Mendes, que ficaria assim dentro da área urbana e encostada mesmo à muralha, ia a Santa Cristina, até próximo da igreja do Carmo, directa à entrada sul da Rua Direita, a meio do Mercado 2 de Maio, rua Chão do Mestre que ficaria dentro de muralha e Casa do Adro, onde começámos. Até hoje, apenas se encontrou um troço desta muralha na rua Formosa, por baixo da muralha do Baixo Império e que apontava a direcção da igreja do Carmo, pelo que esta muralha fundacional deveria chegar até muito próximo das escadas desta igreja construído no século XVIII. Esta configuração, com o baixio de Santa Cristina /S. Miguel incluído, permitia uma melhor configuração ortogonal, tão ao gosto romano. À semelhança de outras cidades romanas, durante os três primeiros séculos, estes limites devem ter permanecido sem alterações. No entanto, com o anúncio da chegada de povos invasores ao Império, os habitantes de Viseu procuraram reduzir o espaço para que melhor pudesse ser defendido. Para isso construíram uma nova muralha pelos finais do século III – inícios do IV. “

“A nova muralha deve ter mantido o limite ocidental, mais íngreme e, por conseguinte, mais fácil de defender, mas reduziu a área urbana do lado oriental e norte (…) passou a meio do jardim que hoje se situa à Escola Secundária de Emídio Navarro, ia por baixo da segunda janela da igreja de Santo António, em direcção a Santa Cristina pelas ruas da Árvore, da Prebenda e do Chantre, deixando de fora todas as casas, sepulturas e outros edifícios que houvesse a oriente desta linha, ou seja entre o actual Largo de Mouzinho de Albuquerque, a Rua de João Mendes ou das Bocas e Avenida Capitão Silva Pereira até Santa Cristina”.

O importante é que os arqueólogos e historiadores possam estudar este achado no sentido de promover o conhecimento histórico, eventualmente introduzindo contributos para a compreensão do espaço urbano da “civitas”. Parece-me desnecessário a musealização deste troço da muralha, dado situar-se dentro da rotunda, numa cota baixa, concordando com a solução defendida por Almeida Henriques de criar um “elemento de informação com fotografias” dos vestígios e ilustração de hipótese de reconstituição da muralha. Tanto mais que já existe um troço desta muralha musealizado,  na Rua Formosa. Os viseenses deviam aproveitar esta oportunidade para defender junto do município a correcção desta  musealização infeliz, de modo a melhorar a acessibilidade a este troço de muralha com um magnífico torreão semi-circular. Apesar do dinheiro gasto em equipamento para controlar a condensação e o embaciamento do vidro, a verdade é que não se consegue ver a muralha.

Recordo que, quando o IPPAR decidiu enterrar aqueles vestígios achados na Rua Formosa, em 2004,  criou-se um movimento de cidadãos para a defesa da musealização. Também o núcleo de Viseu da Associação Olho Vivo organizou um debate, no Instituto Português da Juventude, em 5.04.2004, com os arqueólogos João Inês Vaz, Jorge Adolfo,  Pedro Sobral e o arquitecto Francisco Keil do Amaral, com todos a defenderam a musealização. A Câmara foi convidada, mas não se fez representar, apesar de ter estado na assistência uma arquitecta ao serviço do município que não se identificou, nem se pronunciou. Eu próprio aproveitei a crónica que tinha no Jornal de Notícias para defender a musealização com o rebaixamento do piso, dando como exemplo a musealização da muralha medieval de Pontevedra. Não seria difícil negociar com os proprietários  da “casa dos Lemos”, ainda por reabilitar, aproveitando o pátio ajardinado, de modo a ficar em fundo o edifício com as colunas (agora meio escondido) num projecto arquitectónico que valorizaria o prédio e o património arqueológico. Mas Fernando Ruas optou pela pior solução e teve de inaugurar o projecto de musealização de noite, porque de dia o reflexo do Sol não deixava ver nada. Agora, nem de dia nem de noite.  Também João L. Inês Vaz escreveu um artigo de opinião no JN, defendendo a musealização com o rebaixamento do piso. Talvez ainda se vá a tempo. Seria uma boa forma de homenagear a memória de um dos nossos mais ilustres arqueólogos, a par de José Coelho, que, conforme reconheceu Inês Vaz, foi o  primeiro arqueólogo de Viseu com métodos científicos.

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