Carlos Vieira e Castro

AS PRAXES E “O DIREITO DE SER HUMILHADO”

A vida tem destas coisas: andamos nós muito entretidos a tratar da nossa vidinha, cumprindo os rituais em uso na nossa comunidade para nos sentirmos integrados, sob a capa negra das tradições (religiosas, culturais, académicas, etc.), sem compreendermos a sua génese, nem questionarmos a sua validade, quando, de repente, acontece um acidente, uma comoção que nos obriga a pensar, reflectir e exigir mudanças de comportamento e atitudes preventivas.  Foi o que aconteceu com a morte de cinco estudantes na Praia do Meco, vítimas, ao que tudo indica,  de praxes académicas.

“Não são praxes!” – dizem os fanáticos defensores das praxes. Vão dizer isso ao Diogo Macedo, estudante de arquitectura na Universidade Lusíada de Famalicão, que em 2001 morreu devido a  uma pancada na cabeça, durante uma praxe. “Foi um acidente”, dirão. Não foi um, foram vários. Em 2007, em Coimbra, um aluno de Engenharia do Ambiente sofreu um acidente numa praxe e ficou paraplégico. Nesse mesmo ano, também em Coimbra, um aluno da Faculdade de Medicina ficou ferido nos órgãos genitais quando os veteranos lhe rapavam os pelos púbicos e um estudante na Escola Superior Agrária de Elvas, fracturou a coluna ao cair de 20 metros depois de ter feito o “rali das tascas”, como é da praxe.

Mais raros são os casos mediático de estudantes que ousam apresentar queixa, como a aluna do Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros obrigada a simular um acto sexual, ou uma outra da Escola  Superior Agrária de Santarém praxada com excrementos de vaca, ambas em 2002. Claro que, tal como acontece com outros crimes tolerados socialmente, a maioria das vítimas sofre em silêncio, ou submete-se à humilhação como um suplício inevitável.  Foi o caso da violência doméstica ao longo de séculos (“entre marido e mulher não metas a colher”), até que em 2000, por proposta do Bloco de Esquerda, passou a crime público e a revisão do Código Penal de 2007 distinguiu-o do crime de ofensas à integridade física, por ser diferente ser agredido por um desconhecido ou por um familiar ou companheiro de quem se espera protecção, confiança e igualdade.

Igualdade entre os estudantes é precisamente o contrário do que as praxes defendem. Os caloiros são integrados num sistema hierárquico de castas, em que é preciso obedecer e sujeitar-se a ofensas e humilhações para poder ascender à classe dos que têm o poder de dar ordens, insultar e humilhar. Lembro-me de que na Escola Comercial, durante o fascismo, havia nas paredes, cartazes com a seguinte citação de Sólon: “Só pode mandar quem aprendeu a obedecer”. Sartre glosou: “É sempre fácil obedecer quando se sonha comandar”. Prefiro a citação que alguns jovens pintaram, recentemente, em paredes de Viseu: “Eles mandam porque tu obedeces, Albert Camus”.

A submissão, a obediência cega aos chefes só serve para formatar  cidadãos sem espírito crítico, carneiros como os que no Parlamento votam contra a sua própria consciência, como aconteceu há dias com a ignóbil prosposta do PSD de refendo à co-adopção.

Num debate na Aula Magna, na Universidade de Lisboa, depois da projecção de “Praxis” (melhor curta-metragem do Doc-Lisboa de 2011),de Bruno Cabral, um estudante sacou do último argumento: “Temos o direito de ser humilhados!” . Não se riam! É apenas a tradução na linguagem dos carneiros do que disseram outros alunos: “A praxe é uma lição de vida”. “No trabalho  também vamos ser humilhados e somos obrigados a obedecer”.

No princípio do século XIX, na Universidade de Coimbra, estudantes como Aristides de Sousa Mendes, o cônsul de Portugal em Bordéus que salvou 30 mil pessoas do extermínio nazi, ousando desobedecer a ordens expressas de Salazar para não passar vistos a judeus e outros refugiados, promoviam festas de recepção aos novos alunos com teatro, poesia e música. Eis uma boa tradição de integração. Com criatividade. Não é por acaso que nas principais escolas de artes e arquitectura a tradição é não usar trajes nem praxes.

No Prós e Contra sobre as praxes, até os seus supostos defensores não fizeram mais do que negar chamar praxes às práticas que viraram tradição nas escolas superiores. O presidente da Associação Académica de Coimbra até apelou à denúncia e condenação de casos de humilhação de caloiros. Foi entusiasticamente aplaudido pelos estudantes que foram convocados para o debate para defender as praxes. Mais palavras para quê?…Redação Gazeta da Beira

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