Carlos Vieira e Castro
“Ícones” – Exposição / Museu ou MI(S)TIFICAÇÃO da História de Viseu?

O tema do meu artigo anterior foi levado à última sessão da Assembleia Municipal de Viseu por Carlos Portugal, do PS, e por Jorge Adolfo Meneses Marques, do BE, que questionaram o executivo pela falta de rigor histórico na informação fornecida aos visitantes da cidade. Por um lado na exposição “ÍCONES – História de Viseu – o Despertar do Museu” a Cava de Viriato teria sido obra de Ramiro II, enquanto na própria Cava de Viriato se reconhece ser hoje consensual que se trata de uma cidade-acampamento de época islâmica.
Mas não é só por esta contradição que o Museu de História da Cidade me parece ter começado mal. A Coordenação Geral pertence a Jorge Sobrado, vereador da Cultura, Património, Turismo e Marketing Territorial, licenciado em Ciências da Comunicação. Não se lhe nega a competência no Marketing do município já que Almeida Henriques tem vivido mais da propaganda do que de obras. O único problema é existir em Viseu gente com habilitação mais adequada para coordenar a criação de um museu ou de uma exposição. Na verdade, não existe coordenação científica da exposição. Da mesma forma, não contesto a capacidade científica de qualquer dos arqueólogos envolvidos na produção de conteúdos e nas consultorias (só arqueólogos!!! E de um deles nem sequer se conhece qualquer trabalho arqueológico sobre Viseu…), mas não posso deixar de lamentar que não tenha sido convidado qualquer historiador, e, em particular, os historiadores da cidade com obra reconhecida, doutorados, tais como, Liliana Castilho (que investigou o urbanismo de Viseu ao longo dos séculos XVI a XVIII), João Rocha Nunes Oliveira (colaborador da obra colectiva “História da Diocese de Viseu”) , Dalila Rodrigues (a nossa mais competente historiadora de Arte, especialista em Vasco Fernandes), Anísio Saraiva (que estudou as Sés de Lamego e Viseu, bem como as minorias de Viseu), Teresa Cordeiro (também com obra publicada sobre os cristãos-novos de Viseu quinhentista e seiscentista), ou mesmo Maria José Ferro Tavares, que foi reitora da Universidade Aberta e catedrática da Universidade Nova de Lisboa, especialista em história das minorias religiosas na Idade Média portuguesa, nomeadamente das comunidades judaicas e de cristãos-novos, autora da obra “As Judiarias de Portugal”, tendo, inclusivamente, publicado em 2016, no volume LXXVI da Revista Beira Alta, o artigo “PARA O ESTUDO DE VISEU MEDIEVAL: A JUDIARIA: O SEU ESPAÇO E OS SEUS HABITANTES” (comunicação ao Colóquio sobre a História e Cultura Judaica que se realizou em Viseu, em 2009, cujas actas nunca foram publicadas, apesar de Henrique Almeida o ter, na altura, anunciado para o número dois da revista do Museu Municipal).
Como escreveu Liliana Castilho na Introdução da sua obra “Geografia do Quotidiano: A Cidade de Viseu no Século XVI”, “O estudo da cidade de Viseu no século XVI marca um conjunto vasto de realidades, englobando não só a sua morfologia, mas também os agentes sociais que de alguma forma para ela contribuíram”. Ora, nesta exposição/núcleo museológico não se vêem reflectidos os vários estractos sociais que foram construindo a cidade, os artesãos, os comerciantes, os poderes instituídos, o Senhorio, a Câmara e o Poder Religioso, nem o papel da minoria judaica. O enfoque foi todo para os “ícones”, ou seja, para figuras míticas, mas que na realidade ou nunca teriam passado por Viseu, como Viriato, que pelejou contra os romanos lá mais para o Sul da Península, ou não existiram, como João Torto, de quem apenas se diz na exposição que “se desconfia da sua existência”, quando está mais do que provado que foi fruto da ficção de autor anónimo do princípio do século XX ou do padre Henrique Cid, por ele citado, por sua vez citando Ana Gomes que viveu no século XVI, dado que descreve lugares e edifícios ainda não existentes na época.
Também se lamenta a falta de destaque dado à história da Feira de S. Mateus, uma marca da cidade desde a Idade Média até hoje, reduzidas nesta exposição/museu a uma fotografia e a um triciclo motorizado de venda de farturas.
Se é certo que a cultura dos povos se constrói sobre mitos e que muitas cidades se alimentam (turisticamente) do fascínio humano pela mitologia, como Rómulo e Remo mamam na Loba de Roma, a verdade é que a História não se compadece com ficções, antes exige rigor e verdade.
No fim do percurso expositivo surge uma ressalva: “Esta não é uma exposição qualquer. Esta é a nossa exposição. Aqui levanta-se um pouco o véu para mostrar o que de melhor temos na nossa identidade, o nosso ADN. É o prelúdio do futuro Museu da Cidade e, como todos sabemos, não existe nada na vida mais importante do que os preliminares.” É caso para dizer, alinhando na brejeirice, que tão fracos preliminares auguram para o Museu da Cidade um acto falhado.
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