Carlos Vieira
Foi para acabar com a guerra que se fez o 25 de Abril!
Na última crónica, com o título “Paz na Ucrânia ou Guerra Nuclear na Europa?” falei dos perigos da invasão russa poder descambar numa guerra nuclear. O 25 de Abril fez-se para acabar com uma guerra que provocou cerca de 10 mil mortos só do nosso lado e dez vezes mais do lado dos combatentes e civs africanos. A revolução deve a sua origem à luta vitoriosa dos povos das ex-colónias que combateram durante 13 anos pela sua liberdade e independência. Tal como hoje faz o povo da Ucrânia ao resistir à invasão e à guerra criminosa do regime pró-fascista de Putin, que nada justifica, por muitas provocações que reconheçamos dos governos ucranianos, de democracia duvidosa (segundo a própria UE), e da NATO, ao colocar o seu arsenal a 600 km de Moscovo.
O 25 de Abril está quase a fazer 50 anos. A comemoração deste ano tem o sabor especial de assinalar 48 anos de democracia, mas já com mais uns dias em liberdade do que os 48 anos que passámos em ditadura. O que me faz lembrar o dilema do copo meio cheio ou meio vazio (tudo depende da nossa exigência democrática!), tendo em conta o meio caminho, ou mesmo a regressão, em alguns dos desígnios da Revolução, como sejam a Habitação, um direito constitucional para todos, com o aumento brutal e incomportável que se tem verificado nas rendas (400 ou 500 euros por um T1 em Viseu) e o enorme défice de habitação social em Portugal (como o município de Viseu já reconheceu); a Educação, visto que mais de metade dos jovens com 20 anos não está a estudar e somos um dos países no mundo em que é mais acentuada a diferença entre o número de estudantes inscritos no ensino secundário e os que acabam por entrar no ensino superior; e na Saúde, em que o Serviço Nacional de Saúde, a melhor conquista da democracia, tem regredido, com um milhão de portugueses sem médicos de família e a “deserção” de profissionais de saúde para os grupos privados. Apesar deste retrocesso, devemos ao SNS e aos seus profissionais os bons cuidados que nos foram prestados durante a pandemia da Covid-19. Mas o SNS precisa de cuidados continuados!
Resta-nos o Pão e a Liberdade. O pão, como outros bens essenciais, está a aumentar exageradamente face à estagnação dos salários e do poder de compra. Mas apesar de todas as crises económicas geradas pelo capitalismo (neo)liberal que nos foi imposto pelos vencedores de Novembro que se foram alternando no poder, partilhando as benesses dos fundos europeus desbaratados em corrupção, nas privatizações e nas Parcerias Público-Privadas (Proventos Privados, Prejuízos Públicos!) de que Cavaco, Sócrates e os seus amigos oligarcas foram tristes expoentes, apesar de tudo, nada se compara com a fome, a miséria e o atraso social do tempo de Salazar e Caetano que obrigou mais de um terço da população a emigrar. O que, só por si, mostra a bizarria de termos hoje uma extrema-direita a crescer no Parlamento com um discurso racista e xenófobo proibido pela Constituição de Abril.
Falta ainda cumprir a Igualdade num país com imensas desigualdades sociais e territoriais, onde um governo que se diz “socialista” insiste em não repôr os direitos laborais retirados pela Troika e pelos governos de direita; onde as mulheres ainda estão longe do “salário igual para trabalho igual”; onde o interior continua discriminado, em boa parte devido aos investimentos errados que promoveram a litoralização, como os que nos transformaram no país da Europa com mais quilómetros de auto-estradas do que de ferrovias, desprezando as alterações climáticas e a sustentabilidade ambiental.
25 de Abril, sempre… com “Paz, Pão, Habitação, Saúde, Educação!” E com a Liberdade e a Igualdade que só o Socialismo previsto na Constituiçao da República nos pode garantir. Porque não há Democracia sem Igualdade nem Liberdade!
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