Carlos Vieira
CLÁUDIO TORRES É PRÉMIO EUROPEU DO PATRIMÓNIO CULTURAL/ EUROPA NOSTRA 2023, NA CATEGORIA “CAMPEÕES DO PATRIMÓNIO”! (1ª parte)
CLÁUDIO TORRES É PRÉMIO EUROPEU DO PATRIMÓNIO CULTURAL/
EUROPA NOSTRA 2023, NA CATEGORIA “CAMPEÕES DO PATRIMÓNIO”! (1ª parte)

A par de Cláudio Torres foram também premiados outros três projectos portugueses, de entre 30 apresentados por 21 países: o “Projecto Almada”, na categoria “Desenvolvimento e sensibilização dos cidadãos”, pela conservação e divulgação pública de 5 murais de Almada Negreiros; “Conservação e Restauro do Tecto Mudéjar da Sé do Funchal, com 1.500 m2, obra-prima do nosso património ocultada pelo acumular do fumo de velas e de poeiras ao longo de 500 anos; e, na categoria “pesquisa”, o projecto de Salvaguarda da “Arte-Xávega, um dos últimos exemplares de técnica de pesca artesanal e sustentável na União Europeia, praticada na praia da Tocha, e também em Málaga (“jábega”) e Marrocos (“xávega” deriva do árabe “xábaka”, rede de pesca).
Curiosamente, estes três últimos projectos portugueses premiados estão ligados à presença da civilização árabe e islâmica em Portugal, durante quase seis séculos, ou mais, se considerarmos que, como nos ensina Cláudio Torres, a chamada “reconquista cristã” é um mito, porque “Felizmente houve uma zona mais ao sul, o Algarve, onde os camponeses praticamente ficaram todos, a cultivar as terras em grandes herdades de novos senhores. Só foram expulsos os [árabes e berberes] ricos”.
Da mesma forma que não houve propriamente uma invasão árabe/berbere armada da Península, mas antes uma entrada do Islão através do comércio, das trocas, uma vez que o Mediterrâneo nesse tempo não era, como agora, um fosso instransponível, mas antes uma ponte franca onde os povos de ambas as margens trocavam mercadorias, ideias, crenças e ciência.
Cláudio Torres também desmonta a narrativa histórica da “conquista de Lisboa aos mouros por D. Afonso Henriques”, considerando que o que houve foi a conquista de uma cidade com uma maioria de população ainda cristã monofisista, com alguns convertidos ao Islão (muládis) devido aos contactos com os portos do Mediterrâeo, Alexandria, Tunísia e Oriente. D. Afonso Henriques tomou Lisboa aos cristãos moçárabes e matou o bispo cristão, reconhecido pelo Papa, que defendia os moradores.
Note-se que o júri deste prémio, segundo o comunicado do Centro Nacional de Cultura que representa Portugal na rede Europa Nostra, justificou a sua atribuição a este “Campeão do Património” por reconhecer “as práticas pedagógicas envolvendo activamente a comunidade local na salvaguarda e conservação do património”.“Como construtor de pontes entre as culturas islâmicas e cristã, Cláudio Torres teve um papel decisivo em promover o entendimento e a conservação da herança islâmica em Portugal que é de extrema importância para o património cultural europeu”. “Cláudio Torres já tinha podido constatar, enquanto professor de História Medieval na Universidade de Lisboa, que a duradoura presença islâmica no território português não estava devidamente reflectida na historiografia”.
14/09/2023

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