Carlos Paiva

Acontece…

Dizem que a sorte protege os audazes. Concordo. Aliás, protege-os tanto e tão bem, que, a muitos, faz-lhes o especial favor de os defraudar, impedindo, assim, que façam mais tristes figuras. Não nos iludamos: ninguém ainda traçou, com eficácia, a fronteira entre a audácia e a mais pura tolice, e, enquanto assim for, abençoada seja a sorte que nos vai afastando “audazes” do caminho!

Quanto a mim, não faço a mínima se serei ou não “audaz-positivo.” Tenho uns exames marcados para breve e logo verei se isso aparece ou não nas análises. Se aparecer, dêem-me tudo menos injecções no posterior. Não é por nada, mas, da última vez, fiquei com metade do respectivo dormente, o que pode ter a sua graça, excepto, por exemplo, quando temos de nos sentar, ou então de conduzir, e ficamos com a sensação de que aquela dita metade… não existe. E quem diria que ela faz tanta falta? Deus tudo projectou com conta, peso e medida, até esta parte da nossa anatomia…

Uma coisa que, contudo, me faz falta é mesmo a sorte. Não porque não seja audaz, ou não porque não seja tolo, mas faz-me, ora essa, tanta falta como a qualquer cidadão. Assim que quando ela vem, a gente deve recebê-la de braços abertos e não embarcar em considerações que só nos desviam do essencial: isto é, que ela veio e que nos fez um “jeitaço”, como se costuma dizer, “do caraças!”

Tive hoje, quase sexta-feira santa mas ainda só quinta, tive hoje, dizia eu, um episódio de, à falta de melhor termo, “sorte”. Depois de uma volta ao quarteirão, voltei ao mesmo sítio vago para estacionar, precisamente à frente do Mercado da Ribeira. Como já passara uma vez e o enjeitara, não obstante o esbracejar insistente do arrumador de carros, e agora, passando outra vez, ele ali permanecia, logo pensei tratar-se de coisa do destino. E quando assim é, melhor não trocar as voltas ao Fado. Lá encostei a viatura, honrei o serviço do arrumador com uns ducados e, aproveitando o ensejo, perguntei-lhe onde a máquina de recibos mais próxima, a fim de pagar o parque.

Até aqui, direis vós, a sorte não foi assim muita. Está certo que arranjei lugar, mas à custa de umas moedas para o arrumador e de sabe lá Deus quantas mais ainda a largar na maquineta. O valor, para começar, não importará aqui muito. Quanto ao parquímetro, estava à coisa de uns 50 metros, mas, hélas, entre o ir e o vir, uma funcionária municipal já me entalara, e logo de duas maneiras: entalara um “aviso de pagamento” entre a escova e o para-brisas; e entalara-me a carteira, pois estes mimos não costumam sair baratos ao senhor automobilista…

Tratei logo, muito urbanamente, de explicar à senhora o que acabara de suceder e que, em suma, era injusto estar a receber tão amargas amêndoas pascoalícias! Pois mal parqueara, logo me deslocara à máquina e regressara, tudo na questão de uns efémeros minutos! Isto mesmo acabámos por confirmar os dois, após compararmos as horas no tal “aviso de pagamento” com aquelas a que tirara o talão: o cidadão, afinal, não estava em infracção, pois tirara este último três minutos antes de a senhora funcionária pôr lá o seu. Justiça reposta!

Qual quê! Fiquei logo a saber que, mesmo assim, tinha de levar com o “aviso”, uma vez que já estava emitido e, para fazer valer a minha, teria ainda de ir entrar em contacto com Fulano não sei quem e mandar um comprovativo via mail para outro Beltrano qualquer! É assim: o cidadão cumpre e isso não lhe basta. Vai ter de provar que cumpre. E nem me podia desculpar como o outro (sabeis quem), pois se acabara de ser notificado e, ainda por cima, estava com o comprovativo na mão!… É triste ser-se mexilhão, ai se é…

Mas eu compreendi perfeitamente a senhora, e nisto estou a ser sincero. Foi evidente que tinha de dar conta de uma área bastante vasta e, ao passar ali, naquele momento, viu um coche sem talão, e vai de “aplicar a pastilha!” Fez simplesmente o seu trabalho, como lhe compete. Na verdade, perante isto, que haveria, porventura, a assacar-lhe? Nada.

Mas o “aviso de pagamento” era meu! A chatice era minha! O azar era meu! Sorte, nem vê-la… Enfim, para término de conversa, perguntei-lhe apenas se o famigerado “aviso de pagamento” continha algum elemento identificativo. Que sim, nomeadamente a matrícula? Onde? Aqui, senhor. Ah!… Realmente, ali estava ela. Maldita matrícula!… Podeis rir-vos, se quiserdes, e logo de mim, que abri hostilidades com um relambório sobre “sorte”, ou falta dela. Mas que fazer? Há dias assim e cabe-nos aceitá-los como aos outros, e nada mais. Ponto.

Só mais uma coisa: a senhora, na verdade, enganara-se a grafar a matrícula. Nas letras, dobrou a mesma consoante, quando são duas diferentes, embora parecidíssimas. Olhe que esta não é a minha matrícula. Não é? Não. Então…? Então tem você de ficar com o “aviso”, e não eu, minha senhora!…

Ora, como dizê-lo? Estas coisas acontecem. É como a sorte: também acontece. E a mim, desta feita, aconteceu-ME.

Que tenhais tido boa Páscoa, crentes ou não (em Cristo, na sorte, no que seja)!Redação Gazeta da Beira

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