Carlos Matias da Ponte

“NUM AUGUENTO MAIS - I”

Concluída que foi a minha licenciatura em Direito em 1961 – ao tempo só havia duas faculdades de Direito no País, que competiam entre si para ver qual reprovava mais – fui cumprir as minhas obrigações militares – ao tempo o serviço militar era obrigatório.

Mobilizaram-se para ir para Angola onde tinha eclodido, sobretudo na Região dos Dembos a guerra (U.P.A). Como eclodira antes, no tempo do General João de Almeida, apelidado, por isso de Herói dos Dembos pelo triunfo que alcançou.

Integraram-me num Batalhão de Caçadores, os céleres “Furões da Selva”, onde não era operacional pois era alferes dos Serviços de Administração Militar, correndo poucos riscos comparado com os meus Colegas.

Após 8 meses de isolamento no meio da guerrilha e contra a guerrilha, o Batalhão foi transferido, como reconhecimento do seu valor militar, para a rede de Luanda-Grafanil, onde em 1963 reinava a mais completa segurança.

Mandei vir a família que constituíra antes da mobilização, pois tinham me garantido que não seria mobilizado dada a minha especialidade – contabilidade e pagadoria – e classificação no C.O.M.

Como bom colonialista que era contratei um criado negro. Chamava-se Aníbal. Chegado há pouco do mato era um Angolano cioso de aprender português e que, rapidamente, se afeiçoou a todos, especialmente ao filho do alferes nascido na Metrópole.

Os seus progressos na aprendizagem da língua portuguesa eram visíveis. Ao princípio quando se lhe mandava fazer algo que não gostava dizia: “num ausguento mais”. Isto é “não aguento mais”.

Recordo com afeto o Aníbal, e, inspirado na sua expressão também repito quase como ele: “não aguento mais Isto”.

O que leio nos jornais e revista da especialidade. O que ouço nos canais televisivos expresso por Doutores formados em série nas Universidades dos Trezentos. As análises feitas por jornalistas que emergiram de Escolas Superiores de Jornalismo, tornam dolorosa a sua leitura quando escrevem. Peroram sobre a nossa Descolonização “exemplar” e sobre o golpe do 25 de abril. Fazem considerações sobre Regionalização, Descentralização e Desconcentração, que bradam aos Céus pela confusão e ignorância que neles existe.

Numa perspetiva Marxista, é as vezes fácil entender porque assim falam, e consequentemente os interesses que os manipulam, ou que eles manipulam, dada a sua origem de classe.

Importa esclarecer as novas gerações acerca do passado do País e do seu previsível, ou imprevisível porvir. José de Almada Negreiros falava dos “portugueses que após descobrirem o mundo, ficaram desempregados”.

A nossa pequeneza atual talvez não permita entender o que já foi o nosso país. A “Descolonização Bronca” tem muitos defensores. A Descolonização tinha de ser feita, obviamente. É imperativo, porém, analisar quem eram ou são os que a fizeram, quem os manipulava, que interesses defendiam, consciente ou inconscientemente. Importará dizer e esclarecer que tropa é que mantinha o regime. Importa recordar a chegada à India e o achamento do Brasil. Importa falar da escravatura. Comparar o tratamento dado aos homens brancos e mulheres que iam na época própria trabalhar nas ceifas do Alentejo, os chamados “ratinhos” com o tratamento que era dado aos fiéis bailundos negros que iam laborar “obrigados” para o norte de Angola, a troco de uns simbólicos angolares. Importa estabelecer comparações com outros estados europeus que nos seguiram na India, no Japão, na Indonésia, nas Américas e Norte da África. Importa analisar como os reduzidos dois milhões de portugueses foram capazes de firmar a primeira “globalização” dando, como diria Camões, novos mundos ou mundo, utilizando muitas vezes escravos que Árabes e Africanos negros lhes vinham vender na sequência de guerras internas.

Importa hoje que cada português assuma as suas obrigações cívicas. Que expresse o que deve dizer, face as suas vivências sobre o passado recente e a atualidade. Por sua vez, há jornais que tem especiais obrigações, como o caso da “Gazeta” e seus jornalistas, que têm de dar à luz, como foi e é seu timbre, material mesmo que politicamente incorreto.

Na Gazeta da Beira foram publicados artigos de gente com prestígio. Nele escreveram Jorge Sampaio, Luiz Felipe Madeira, Natália Correia, Correia de Campos, António Bica, César de Oliveira, Amadeu Carvalho Homem, António Brotas, David de Almeida, Paulo Quintela, Manuel Guimarães da Rocha, Homem Cardoso, e mais recentemente, Carmo Bica e Francisco Barros. Gente que não tem necessidade de assinar os seus artigos com um Dr. ou Eng. com um risco por cima…

Este jornal tem na verdade um “histórico” invejável, consequentemente, especiais obrigações. O seu Diretor foi acusado de violador do Segredo de Justiça, julgado e absolvido, tendo sido pronunciada sentença notável que Óscar Mascarenhas desenvolveu no Diário de Notícias.

Mas a “Gazeta da Beira” tem uma coroa de glória que importa evidenciar e até apregoar, jornal que sempre se preocupou com os incêndios nas florestas, abriu um debate com os seus leitores sobre o assunto. Com a colaboração especial de António Bica foi elaborado e publicado uma proposta de Projeto Lei que remetida para a Assembleia da República ali foi admitida e sem alterações subiu a Plenário.

Conforme Diário da Assembleia da República I Série – número 39 de 6 de fevereiro de 1991, pág. 1996 que se transcreve: “Srºs deputados, vamos passar à votação do projeto de lei nº 663/5 (P.R.D) medidas a adoptar para a prevenção e contenção dos fogos nas florestas. Submetido à votação foi rejeitado com votos contra do P.S.D., e votos a favor do P.S., P.C.P, P.R.V, do C.D.S e dos deputados independentes Herculano Pombo, João Corregedor da Fonseca, Jorge Lemos e José Magalhães.”.

Reparem os leitores atentos da Gazeta, nesta singularidade. Gazeta da Beira, repete-se, elaborou um texto que foi admitido na Assembleia Legislativa do País e sem alterações foi discutido em Plenário. Apetece-nos perguntar: que jornal português, quiçá europeu, se pode orgulhar de tal?

Importa, perdido o Império falar em descentralização, em desconcentração., em regionalização. Em regiões administrativas previstas na constituição e escondidas nos debates eleitorais. Importa explicar a razão porque o Estatuto do Antigo Combatente continua “preso” na Assembleia da República.

Gazeta da Beira irá aprofundar tudo isto face a responsabilidades que tem em razão do seu passado “livre”.

Espera-se que não haja abordagem na rua para os jornalistas que tratem dos respetivos temas, como já aconteceu. Importa esclarecer quem desencadeou o 25 de abril e as respetivas circunstâncias, como se referiu.

Também, a finalizar e porque não se “aguenta mais”, em estilo de Canto do Cisne, se deve abordar a obra e a ação dos Sampedrenses que tendo no passado e no presente se notabilizado “Além-Lafões” são desconhecidos na sua terra.

Os que ficam são melhore dos que abalam?

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