Carlos Correia Matias
Cantos de Manhouce Património Imaterial de Portugal

Temos acompanhado no possível, as reuniões, encontros, assembleias de esclarecimentos promovidas com a finalidade de virem a ser considerados os Cantos de Manhouce, património imaterial de Portugal, quiçá da Humanidade.
Há dezenas de anos que acompanhamos os Cantares de Manhouce como emanação cultural que são de um Povo com identidade própria, tendo em vista a sua divulgação áquem e além Vouga, áquem e além-mar. Só existe o que se sabe que existe.
Com grande satisfação verificamos que entidades ou instituições públicas, designadamente a Câmara Municipal de São Pedro do Sul, têm actuado em conformidade, o que muito se louva.
Não vamos recordar o que Lopes Graça, Jacometti, Tomás Ribas, Mário Martins, David Mourão Ferreira, José Gomes Silvestre, Armínio Quintela, Miguel Esteves Cardoso, – “Em Portugal temos a Amália e o Grupo de Cantares de Manhouce”, escreveu no Expresso – disseram dos Cantares, entre outros.
A Amália fez questão em convidar Isabel Silvestre e o seu Grupo para cantarem na sua residência em Lisboa. O Embaixador Fernando Reino fez questão também de levar Isabel Silvestre e o seu Grupo a actuarem na Embaixada de Portugal em Madrid num dia 10 de Junho, onde Isabel Silvestre cantou a “Portuguesa” como canção, o que impressionou os Embaixadores dos EUA, União Soviética, França, Reino-Unido, entre outros ali presentes.
Na Igreja da Candelária no Rio de Janeiro, o organista brasileiro que acompanhava a missa celebrada conjuntamente pelo Padre desta Igreja e pelo Padre de Manhouce, impressionado com a intervenção dos cantares e solos de Isabel Silvestre, no momento da elevação da “Hóstia”, fez soar acordes da “Portuguesa” que a todos profundamente emocionou. O templo estava cheio.
Alexandre O´Neil, no Teatro Maria Matos em Lisboa em espectáculo conjunto do Cénico de Jaime Gralheiro e do Grupo de Cantares, no final, emocionado, subiu ao palco para abraçar o dramaturgo e beijar Isabel Silvestre. Miguel Portas era um admirador do Grupo. O Bloco de Esquerda fez questão em convidar o Grupo para um espectáculo em Bruxelas.
Não vamos também relevar a outorga da Comenda da Ordem do Infante em Guimarães no dia 10 de Junho pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, a Isabel Silvestre, nem a visita feita a Manhouce e ao Grupo pelo Presidente da República Ramalho Eanes. Refere-se, porém, a concessão feita pelo Secretário de Estado do Turismo da medalha de mérito Turístico ao Grupo de Cantares.
Mas, em estilo de achega, permitimo-nos transcrever o que Natália Correia escreveu sobre o Grupo e Isabel Silvestre na capa do respectivo disco:
“ Encantatórios são estes Cantos entoados pela alma da serra, alma mater saudosa do pólo celeste com que consumava o Todo.
Vozes que liturgicamente conjuram o reatar das núpcias do Céu e da Terra. Nelas perpassam acenos melódicos do Canto Gregoriano?
Escutai antes a fonte de onde eles jorram, primitivas melodias hebraicas entranhadas nos ritos populares beirões por uma antiquíssima cultura semita que, vinda do Médio Oriente, remanesce no Húmus popular das Beiras. E é da persistência desse hoje comprovado património em que se inscrevem arquétipos matriarcais provindos de uma Teologia do feminino, provectamente anterior à religião patriarcal dos Hebreus, que da magia do coral de Manhouce se eleva, como uma branca aureola musical, a voz puríssima de Isabel Silvestre em que se ouve o marulhar das águas maternas da origem. Bem hajam os cânticos que adormecem os corações insones destes tempos escurecidos pela peste do ter, que incendeiam a História.”
À laia de inciso, a finalizar, e dada a eventual complementaridade com o escrito por Natália Correia, importa recordar que era e é costume apelidar os sampedrenses de “Ceboleiros”, os vouzelenses de “Espicha Sacos ou Sapos” e os oliveirenses de “Rabinos”. Rabinos eram e são os chefes religiosos hebreus…
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