CÃO DE LOIÇA por Rui Chã Madeira
Sobre a hiperatividade e o défice de atenção
A perturbação de hiperatividade e de défice de atenção, diagnosticadas em conjunto ou em separado, por motivo de exposição mediática, tornou-se um assunto de especial interesse e de notório debate público e privado. Mesmo com todo o tipo de informação disponível, alguma com relevância e acuidade científica outra sem qualquer conteúdo verossímil, torna-se essencial que a problemática seja devidamente analisada e tratada de modo competente e responsável. Sabemos que no nosso país, nos últimos anos, a venda de medicamentos com o princípio ativo cloridrato de metilfenidato aumentou exponencialmente e que a comunidade médica nem sempre concorda com a prescrição sistemática dos mesmos. Sabemos que no sistema de ensino parece existir uma tendência para normalizar todos os comportamentos desajustados ao contexto clínico e os encarregados de educação permanecem na angustiante dúvida sobre se alguns sinais revelados pelos seus educandos podem ser indicadores da perturbação. Sabemos que algumas vezes, no lugar de procurar ajuda especializada, tendemos para generalizações, preconceitos, deduções pouco fidedignas e principalmente para decisões débeis em objetividade e rigor ao ponto de restringir todos os comportamentos como fazendo parte da idade ou de serem realizados por indivíduos um pouco mais desatentos ou agitados do que os outros. Portanto, para perceber se de facto existe ou não um transtorno de hiperatividade ou de défice de atenção ou de ambos e antes de diagnosticar e julgar através de pressupostos de base social ou meramente comparativos, aconselha-se, em primeiro lugar, a consultar técnicos com comprovada experiência na realização de rigorosas avaliações clínicas e eficaz acompanhamento psicológico. Em segundo lugar, ter consciência e intervir no que nos rodeia, começando por considerar que o mundo atual estimula incessantemente para a inquietude pela simples razão que o tempo de cada um transformou-se, dada a velocidade com que vivemos, num só andamento. Em terceiro lugar e porventura mais importante, muito embora reconheça-se que muitas vezes é difícil interagir com alguém acometido com este transtorno sem estar devidamente medicado, é perentório compreender que as crianças, jovens e cada vez mais adultos, por determinismos genéticos ativados por certos fatores ambientais, sofrem grandemente com esta perturbação. Para compreender o sofrimento basta, nem que seja por breves instantes, imaginar como nos sentiríamos se tivéssemos uma descontrolada vontade de nos mexer mas permanecêssemos amarrados a uma cadeira ou como seria possível concentrarmo-nos numa simples tarefa sem conseguir abstrairmo-nos de todos os estímulos à nossa volta, desde os mais diversos ruídos e movimentos até ao simples esvoaçar de uma singela borboleta. Parece difícil e de facto é.
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