CÃO DE LOIÇA por Rui Chã Madeira
O pêndulo da felicidade e da infelicidade
Um conceituado psiquiatra e psicanalista português referiu não acreditar na felicidade e em consonância, no decorrer da sua vasta experiência clínica, menciona que o objetivo das suas consultas psicoterapêuticas é transformar o sofrimento mais incapacitante num sofrimento idêntico a todos os outros. Considerando a observação anterior e para que possamos intervir adequadamente sobre a matéria, importa não só compreender o complexo conceito de felicidade mas também incluir o que o destrona. Partindo do singelo princípio que a felicidade é essencialmente um estado psicológico estável de satisfação e de equilíbrio e que a infelicidade é a ausência desse estado, podemos deduzir que perante as variadas situações da vida o pêndulo, despretensiosamente, oscila entre o ser e o não ser feliz. Continuando com a nossa reflexão, avançamos para as possíveis causas que podem determinar o balançar entre o nosso estar alegre e o nosso estar triste. Para além das situações imprevisíveis e incontroláveis que possam eventualmente acontecer, em primeiro lugar, não conseguimos controlar quem decide participar ou abalar a nossa felicidade. Em segundo lugar podemos determinar a felicidade ou a infelicidade dos outros. Em terceiro lugar podemos controlar a nossa própria oscilação entre o estar e o não estar feliz. Em relação à primeira circunstância, muito embora não tenhamos participação ativa em definir o nosso estado, temos a possibilidade de decidir modificar a oscilação, bastando para isso diminuir o que nos torna infeliz. Em relação à segunda situação temos uma enorme responsabilidade em decidir se o outro seja beneficiado com a felicidade ou devastado com a sua ausência. No que diz respeito ao terceiro motivo, na maioria das vezes não conseguimos, de forma consciente, controlar o nosso próprio estado. Prosseguindo, não existe nenhuma razão nem nenhuma obrigação para estarmos sempre em júbilo ou sempre em constrição. Na realidade, por falta de aptidão emocional ou desfocados do que é importante, nem sabemos como passar de um estado para o outro ou como impedir que os outros também oscilem. Da mesma forma, por vezes, desresponsabilizamos a nossa ação quando promovemos a oscilação que deprime os outros. Mesmo que sejamos ensinados a não transparecer o que nos vai na alma, é vital, para controlar minimamente a inquieta natureza do pêndulo, incluirmos na nossa essência a nobre capacidade de perdoar, a difícil palavra não ou sem receio, caso seja necessário, pedir ajuda. Acima de tudo devemos reduzir o que não tem importância e valorizar não só a palavra amor mas o seu tempo verbal cuja energia é a única forma de manter o pêndulo no seu devido lugar. Resta, portanto, para o bem comum, tomar verdadeira consciência sobre o que andamos aqui a fazer, o que os outros fazem de nós e aquilo que fazemos aos outros.
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