CÃO DE LOIÇA por Rui Chã Madeira
A angústia de ser ateu
Dentro do espetro dos receios intrínsecos ao pensante ser humano, um dos maiores medos é indubitavelmente a morte. Muito embora não exista ainda um meio de a evitar, essa fatalidade, ora romantizada ora exasperada, tendo em conta a sua súbita aparição, pode ser representada de diversos formatos. Como vamos morrer torna-se um profundo diálogo entre nós e com os outros, existindo, dessa maneira, vários anseios sobre o momento em que a morte surge como um definitiva certeza sem espaço para qualquer negociação, apelo ou fuga. No entanto, o que realmente crucifica não é a ação de morrer, o que aterroriza e desatina é a não existência. Deixar de existir é dramaticamente pungente pela simples razão de sabermos que não podemos, em todos aspetos e formas, continuar a ser.
Chegando a este resultado só existe uma maneira do comum mortal sentir-se mais apaziguado e menos perdido no tempo e no espaço. Essa maneira é a perspetiva da vida depois da morte, ou em melhor termo a existência depois da morte caridosamente instituída como a pedra basilar de várias religiões, especificamente a mais comum e apreciada religião católica apostólica romana. Não existe melhor forma de sedução do que testemunhar, com absoluta e inequívoca certeza que quando morrermos a nossa alma, não o corpo porque é pesado, elevar-se-á para um bucólico local onde podemos continuar a viver em eterna felicidade e tranquilidade com o extasiante benefício de irmos encontrar os que mais amamos e que entretanto chegaram primeiro. Acreditar depende, com mais ou menos redundante espírito crítico, da sensibilidade de cada um. Se os quesitos normalizadores do modo de ser e de estar forem mais ou menos cumpridos, então a salvação, nem que seja através da confissão dos pecados e de algumas rezas como penitência, para além de prometida é salvaguardada.
Crença, fé, atos e omissões à parte, adicionamos a este texto os infelizes ateus, não agnósticos ou proto ateus, mas ateus de facto e com a devida consciência da desventura de o ser. Torna-se impossível tranquilizar alguém que acredita que quando morrer transforma-se em matéria orgânica por decomposição como qualquer outro ser vivo. Desacreditando a subida aos céus e aceitando a sua desmaterialização em solo humífero ou em cinza empacotada, a verdade é que os ateus são indivíduos, mesmo aqueles que dizem estar confortáveis na sua ideologia, profundamente angustiados. Deixar de existir e não acreditar na vida para além da morte é bastante doloroso. Portanto os cristãos estão em grande vantagem, fingindo ou não, pelo menos não vivem de forma tão angustiante. Assim sendo ainda existe uma hipótese de emancipação a tal fúnebre flagelo. A fórmula é simples pois basta deixar de ser ateu convicto e voltar a ser dedicado e respeitoso cristão. Há quem faça isso com muita regularidade.
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