Bipolarização política

Manuel Silva

Francisco Sá Carneiro defendia a bipolarização política entre partidos identificados com  a democracia ocidental e a integração na então CEE. Um dos polos seria constituido pela Aliança Democrática (AD), que não era uma frente de direita, mas um bloco reformista, integrante das forças de direita democrática, centro e esquerda moderada. O outro polo seria constituído pelo Partido Socialista (PS).

Embora o PS nunca aceitasse aquela posição do primeiro líder do PSD, a bipolarização acabou por funcionar, na prática, desde a obtenção de duas maiorias absolutas pela AD, em 1979 e 1980, até hoje, com um interregno entre 1983 e 1985, durante o governo do bloco central.

Durante mais de 30 anos, a manutenção ou mudança dos detentores do poder partia do centro, a partir do qual se conquistava a direita e a esquerda. Hoje, o centro desapareceu. Temos uma nova

bipolarização: direita (PSD e CDS)/esquerda (PS, PCP e Bloco de Esquerda).

Esta alteração qualitativa da nossa vida política deve-se ao abondono do ideal social-democrata pelo PSD, que, na realidade, teve início com a tecnocracia cavaquista, a meio da década de 80 do século XX, e ao seu endosso da ideologia conservadora, ultra-liberal, vincadamente direitista, hoje dominante no Partido Popular Europeu (PPE), responsável pela perda de direitos ancestrais dos trabalhadores, o enfraquecimento do Estado Social, o empobrecimento da classe média e de quem já era pobre, e o aumento das desigualdades sociais.

Na aplicação daquela política, Passos Coelho e Paulo Portas tiveram um comportamento arrogante com os adversários, desprezando muito especialmente o PS, e de sobranceria face à Constituição, no que foram acompanhados por Cavaco Silva, o qual, principalmente no seu segundo mandato, não se comportou  como presidente de todos os portugueses, mas apenas dos que nele votaram  e das forças que o apoiaram, hoje em minoria na sociedade.

Nas eleições legislativas do passado dia 4 de Outubro, Passos e Portas ganharam as mesmas, mas perderam a  maioria absoluta.

Na noite eleitoral voltaram a ter uma atitude de desprezo para com o PS, do qual precisavam para poderem continuar a governar.

Posteriormente, toda a esquerda parlamentar, agora maioritária, decidiu viabilizar um governo do PS, chefiado por António Costa. O radicalismo ideológico, ao serviço do país “de cima” e contra o “país de baixo”, o desprezo pela oposição, bem como pelas regras do jogo democrático,  obteve o repúdio de mais de 60% do eleitorado e provocou a nova solução governativa.

O PS propõe-se pôr fim à austeridade, melhorar as condições de vida dos cidadãos, fomentar o investimento e o crescimento, não com base em baixos salários, mas na qualificação e na aposta na ciência, sector dos mais desprezados pelo anterior governo, e, por outro lado, colocar o défice abaixo dos 3% e diminuir a pesada dívida pública, que teve um aumento de cerca de 30% durante a governação PSD-CDS.

Aquela tarefa não é fácil, mas se fôr concretizada, o PS será o vencedor das próximas eleições legislativas, independentemente da data em que ocorram. Assim sendo, a derrota do PSD  e do CDS fá-los-á mudar de políticas e de líderes, voltando a ser verdadeiros partidos social-democrata e democrata-cristão, como era a vontade de Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Amaro da Costa. Então, voltaremos a ter uma bipolarização a partir do centro.

Se o PS e os seus aliados na A.R. falharem, a direita regressará com maioria absoluta, mais radical e revanchista que nunca, o que provocará enorme conflitualidade social, pois após o repúdio maioritário das anteriores políticas em 4 de Outubro, nada mais poderá voltar a ser como dantes.

 

 

PS 1: Duarte Marques, do PSD, aconselhou Pacheco Pereira a abandonar o partido, dadas as críticas que tem feito à linha seguida pelo mesmo, ou seja, por defender a social-democracia contra o desvio direitista e anti-social-democrata daquele partido. Porque não há o mesmo zelo relativamente a Heduino Gomes, “o camarada Vilar, secretário-geral do PCP(m-l)”, que após ter sido comunista durante 20 anos, inicialmente no PCP e posteriormente no maoismo, se tornou militante do PSD há mais de 30 anos, e, no blogue “Mais Lusitânia”, elogia Salazar, diz ter sido o 25 de Abril a maior desgraça de Portugal, chama aos que desertaram da guerra colonial – o que ele também fez – traidores? É que, nos estatutos do partido ainda chamado de social-democrata é afirmado dever ser expulso do mesmo quem  defender ideologias contrárias à sua, especialmente as totalitárias.  Perante esta dualidade de critérios, teremos de chegar à conclusão que há no PSD quem entenda ser a social-democracia contrária à sua política actual, o que não deixa de ser verdade, e quem conviva bem com a direita salazarista, retrógrada  e reaccionária.

PS2: A todos os colaboradores, assinantes, anunciantes e leitores da “Gazeta da Beira” apresento votos de um Feliz Natal e um bom Ano Novo.Redação Gazeta da Beira

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