Bernardo Figueiredo
O POETA E DRAMATURGO ARMANDO CÔRTES-RODRIGUES

O escritor açoriano Armando Côrtes-Rodrigues nasceu em 28 de Fevereiro de 1891 em Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel, Açores. Morreu em 14 de Outubro de 1971 em Ponta Delgada, na mesma ilha.
Fez o ensino secundário em Ponta Delgada e licenciou-se em Filologia Românica na Universidade de Lisboa, curso que concluiu em 1927. Em Lisboa entrou no círculo literário modernista que integrou com Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro e outros. Colaborou na revista Orpheu, editada por esse círculo, e também nas revistas Presença, A Águia, Exílio, Cadernos de Poesia, Portucale e Atlântico.
Em 1917 regressou a São Miguel. Foi professor no Liceu de Ponta Delgada até se reformar.
Nos Açores fez importantes recolhas de literatura oral popular açoriana. Além da poesia que escreveu para revistas, publicou os livros: Ode a Minerva, Quatro Poemas Líricos, Horto Fechado, Conto de Natal, Em Louvor da Humanidade, Cântico das Fontes, Cantares da Noite, Auto do Espírito Santo e Auto do Natal, Poesia Popular Açoriana, Cantar às Almas, Cancioneiro Geral dos Açores, e Adagiário Popular Açoriano.
A filha do poeta, Maria Ernestina Botelho de Gusmão Côrtes-Rodrigues, participou em 22 de Março de 2019, em Vila Franca do Campo, no lançamento do livro com a tese de doutoramento da Profª Drª Anabela Azevedo de Almeida Barros na da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com o seguinte texto:
Agradeço ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, Sr. Ricardo Rodrigues, a publicação da tese de doutoramento de Março de 2014 da Professora Drª Anabela Azevedo de Almeida Barros na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa sobre o meu pai, o poeta Armando Côrtes-Rodrigues.

O poeta nasceu em Vila Franca do Campo a 28 de Fevereiro de 1891 e viveu em São Miguel, sempre que pôde, até à sua morte.
O meu pai era naturalmente poeta. Além disso era católico e regionalista açoriano muito ligado ao povo, desde os mais ricos e cultos, até aos mais pobres. Não recusava esmola a quem pedia. Em Ponta Delgada uma pedinte sem abrigo, que dormia na praia da Calheta debaixo de um velho barco de pesca, ia frequentemente a nossa casa pedir. O meu pai dava-lhe algum dinheiro e, se ela pedia, também um pequeno cálice de aguardente. A minha avó reprovava-o: “Que disparate, dar-lhe aguardente.” O meu pai respondia: “Como quer que ela console a alma, se nem sabe ler.”
O meu pai passava as férias escolares na casa que foi o convento de Santo André, em Vila Franca do Campo, onde convivia com toda a gente, sobretudo os trabalhadores.
Vestia cotim como como eles, entrava nas suas casas, levando-me muitas vezes, a ensinar-me a tratar com respeito ricos e pobres. A minha avó repreendia-o: “Armando, não leves a tua filha para casa dessa gente. Os teus cunhados não fazem isso. ” O meu pai sempre respondia: “Quero que aprenda a tratar todos por igual, ricos e pobres.”
Gostava de ir à pesca com os pescadores, vestindo como eles e participando nas fainas do mar. No fim da pescaria, os pescadores sempre impunham que levasse a parte que cabia a quem ajudara, incluindo o meu pai.
Entrava na casa de todos para conviver, aprender os costumes açorianos, fazer recolhas de adágios, cantigas e romances, e ouvir tocar viola e cantar.
Nas Furnas, em casa de pessoas do campo, viu um busto de Camões posto em nicho, como se fosse santo. Perguntou: “Que santo é esse?” Responderam: “É o São Caimão, santo das cantigas.” Aceitaram vender-lhe o São Caimão, que teve no seu quarto, na casa da Rua do Frias, até morrer em 1971.
Por nossa casa passaram muitos artistas e homens de cultura, como o pintor Domingos Rebelo, o escultor Canto da Maia, a poetisa Cecília Meireles, Afonso Chaves, Vitorino Nemésio, e muitos outros. Entre os Bensaúdes fez grande amizade com o José, dono da Fábrica do Tabaco.
Entre os Bensaúdes fez grande amizade com o José, dono da Fábrica do Tabaco, que fora seu companheiro de escola e casou com trabalhadora da fábrica chamada Maria.
Por vezes o meu pai era convidado pelo José Bensaúde para jantar, anunciando sempre lombo de vitela assado e vinho do Pico. Quem preparava o jantar era a mulher, que sabia que o meu pai preferia lombo de porco ao de vitela. À chegada a Maria Bensaúde segredava-lhe: Ó Cortes, o lombo de porco é vitela para o José. O jantar prolongava-se em animada conversa, comendo a anunciada vitela e bebendo do Pico.
Quando se despediam, o José Bensaúde sempre comentava para a mulher: Ó Maria, quando o Côrtes vem a nossa casa caprichas no assado de vitela.
Na Vila Franca do Campo há uma placa na casa em que o meu pai nasceu, perto da Igreja da Misericórdia. Mas a casa a que esteve mais ligado foi a do antigo convento de Santo André, onde passava as férias escolares, sobretudo as de Verão.
Foi viver para essa casa, com cerca de 7 anos de idade. Nela conviveu com a criada Claudina e uma antiga freira do convento.
O meu avô, pai do meu pai, casou-se pela segunda vez em 1898, quando o meu pai tinha 7 anos. O meu pai, cerca de 2 anos depois, foi estudar, como interno, para o Colégio Fisher em Ponta Delgada.
A ligação do meu pai à sua casa no antigo convento de Santo André foi muito forte. A partir dela, em tempo de férias, manteve as suas fortes ligações ao povo de São Miguel. Será justo isso ser lembrado em placa adequada a afixar nessa casa.
Agradeço à minha amiga Ana Botelho o seu grande empenho em ser lançado na Vila Franca do Campo, com o patrocínio da sua Câmara Municipal, o excelente livro da Professora Drª Anabela Barros sobre o meu pai, fazendo-o sair do esquecimento literário.
Os meus agradecimentos a todos.
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