Aurora Simões de Matos

CAPRICHOS DA NOITE, EXERCÍCIO PARA ADULTOS

Mansa, silenciosa e simples, a noite caía sobre a minha aldeia. Caíam sempre assim as noites da minha aldeia. Mansamente. Silenciosamente. Simplesmente caíam. Caíam com a naturalidade de quem cumpria a rotina de desdobrar o manto do sossego sobre a Terra.

Era assim há muitos anos, no tempo dos sorrisos da minha meninice. Que a minha meninice já não sorri há uns bons anos.

Só o assobio do pai, chamando a casa algum filho mais atrasado, cortava aquela brandura da noite dispersa por caminhos soltos de águas soltas em pedras macias, onde o luar reflectia sombras de duendes que povoavam lendas e historietas que meu avô sabia e salpicava de segredos e misteriosas encruzilhadas.

Pairava sobre a Terra uma intimidade aveludada, desde a hora a que o crepúsculo, transformando as coisas em vultos que a penumbra cobria de discrição, prenunciava o caminho à noite habitada de escuridões e de silêncios.

A brisa nocturna acordava rumores nos soutos e tapadas e despenteava com dormentes carícias as finas barbas das maçarocas nos milheirais, em cântico mítico apenas violado pelo agoiro do uivar de um lobo ou do piar de um mocho solitário.

E foi assim, sentindo a leveza do crepúsculo, a ambiguidade dos vultos, os cambiantes da escuridão e a fantasia que meu avô enchia de cumplicidades, que pela primeira vez me apercebi do fascínio, do mistério, das fragilidades e das forças da noite. Com os seus conformismos e os seus inconformismos. Com as suas tolerâncias e as suas implacabilidades. Com os seus torpores e preguiças, sonolências e quietudes. Com os seus romantismos e apelos ao sonho. Com as suas obscuridades e gestos demenciais.

A noite é a hora da solidão do pensamento, da solidão das palavras, dos corpos e dos espíritos, do despojamento dos atavios diurnos. E também das ratoeiras, dos precipícios e das obliquidades, da morbidez do lusco-fusco a coberto de forças ocultas nas horas mortas.

A noite é a hora a que, quando libertos das pressões do dia, nos remetemos à degustação demorada dos nossos triunfos ou ao remorso surdo das nossas incapacidades. Os sentidos refinam amores e ódios, conferindo novas dimensões aos sentimentos.

Pomo-nos em causa ao avaliarmos e reavaliarmos os nossos actos à luz de emoções com uma identidade tão especial, que nos faz parecer tudo mais belo e romântico, misteriosamente espiritual. Ou então mais pesado, irremediável e redutor. Tudo dependendo da leveza da sombra ou da carga de negritude que em cada dia desenvolvermos no nosso ser.

Segundo as escolhas ou as circunstâncias do viver de cada um, o ritmo biológico de cada vez mais gente é alterado, em função daquilo que se entende por progressão social, profissional, económica, política.

Cada vez mais, a noite é a opção assumida para palco de interesses conscientes da supervalorização das coisas vistas de uma qualquer perspectiva, desde que focalizadas pelas luzes da ribalta. Então, reinventam-se os tais atavios, que atingem os limites da hipersofisticação, na selecção do que cada qual pensa ser a qualidade e o bom gosto.

A noite permite-nos a abertura do pensamento e da imaginação a estas e outras cogitações, que me levam a concluir que, nela, nada tem voz neutra.

E embora sendo por excelência a inspiradora do poeta, possa ser também a inspiradora do crime, nunca, pessoalmente, desisti de me deixar seduzir por aquele crepúsculo que oferece aos seres uma penumbra de discrição e me permite mergulhar no mundo dos mistérios, das solidões, dos misticismos, dos silêncios, dos sonhos, das fantasias e dos duendes de que meu avô falava e salpicava de segredos e saborosas encruzilhadas.

Continuo sobretudo a fazer o apologismo da noite como o manto de sossego que, no tempo em que sorria a minha meninice, se desdobrava e caía sobre a aldeia. Mansamente. Silenciosamente. Simplesmente caía, num convite ao retemperar de forças, através das várias fases do sono. Que, segundo dizem os entendidos, é ainda e sempre o grande momento dos sonhos.

A noite é, claramente, espaço de contradições. Saber aceitar ou contornar os seus caprichos é, como sempre foi, exercício para adultos.

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