Aurora Simões de Matos

Páscoa, tempo de encontro

O tempo de Páscoa é, em praticamente todas as aldeias portuguesas, tempo de festa, tempo de alegria, de cor e movimento, de novos aromas e novos sabores, de novas esperanças. Tempo de renovação física e espiritual.

A natureza, cenário de fundo neste palpitar de vida renovada, renova-se ela também, emprestando aos ambientes uma singular magia, sempre repetida e cheia de surpresas.

A paisagem dos nossos montes cobre-se de manchas brancas e lilases da urze, de manchas brancas e amarelas da giesta, do tojo e da carqueja. As árvores florescem de cor-de-rosa e brancura, e apetece encher a memória com palavras de rosmaninho e alecrim. A brisa sopra de mansinho só para arrepiar o corpo e lembrar que a bordadura dos caminhos é também um momento de esperança.

Dá vontade de juntar todo o tempo do ano na mesma época, para que os dias se façam dias, apenas para podermos reviver lembranças que nos deixaram felizes.

É assim à beira-Paiva e por todas as serras circundantes, do Montemuro à Gralheira, do S. Macário à Freita.

É Páscoa na minha terra. Escancaram-se portas e janelas, num convite à amizade, à convivência e ao amenizar de inquietações. Numa oferta de novos propósitos.

Os que nunca daqui saíram, habituados aos ciclos do tempo, conhecem de cor todos os sinais e sabem que estes são dias de azáfama redobrada, de receber os que chegam carregados de histórias, às vezes de sonhos concretizados, às vezes de feridas abertas.

Cansados da viagem e da saudade, trazem doutras paragens mais ou menos distantes, os pequenos luxos ligados ao progresso e ao consumismo que aprenderam por lá. Aqui vêm recarregar baterias para mais uns tempos de ausência.

Escancaram-se portas e janelas, para que entre o sol e a brisa em lugares fechados há meses. Para que entrem as palavras e se possam trocar abraços e prendas, e se possam cumprir promessas.

Em tempo de grandes limpezas, as casas e os caminhos são passados a pente-fino, para receber a visita de familiares, mas sobretudo para receber a visita do Senhor.

Quando eu era criança, há muitos anos já, a Páscoa ganhava uma dimensão de significado  bem diferente da do tempo presente.

Durante toda a Quaresma, não se podia cantar nem dançar. Na Semana Santa, não se ouvia música e, a partir de Quinta-Feira, não se devia estender roupa em lugares expostos à vista de quem passasse, pois isso constituía uma falta de respeito pelo sofrimento de Jesus, que exigia discrição. Havia quem se vestisse de preto e quem se fechasse em casa. Tudo em nome do luto pelo martírio na Cruz.

Hoje, os sentimentos encaram-se de modo menos rígido, talvez porque sabemos que, ao terceiro dia, as esperanças dão lugar às certezas e o Domingo da Ressurreição traz consigo a reconciliação e os sinais duma vida nova.

Para isso, agora como naquele tempo, a última parte da Quaresma é tempo de confissões gerais na nossa Igreja. Prática bem arreigada na fé da nossa gente.

Família que se preze tem que cozer o trigo de ovos e o bolo podre. Os sabores não são os mesmos do meu tempo de menina, em que as grandes fornadas eram confeccionadas com o cereal cultivado nos nossos campos, os ovos colhidos durante semanas nos ninhos das nossas poedeiras.

A matéria-prima não é a mesma, mas continua a cumprir-se a tradição. Então o bolo podre, enriquecido com a doçura do açúcar, a maciez do azeite e uns discretos pós de canela, é uma verdadeira delícia e constitui uma das grandes imagens de marca desta região. Com ele se adoçam os dias, se presenteiam visitas, amigos e afilhados, se pagam pequenos e grandes favores, se enviam sabores únicos para terras distantes, se enriquece a mesa pascal.

Os caminhos foram varridos, as entradas das casas profusamente marcadas com alecrim e rosmaninho.

Quando o tilintar da campainha anuncia a chegada da Cruz. estralejam foguetes à porta dos mais exuberantes. É o ponto máximo da Festa Pascal.

A família, de pé, recebe e beija respeitosamente Jesus Crucificado. Vive-se uma sensação de conforto e alegria. É aspergida água benta e recitam-se aleluias. Há cumprimentos, sorrisos, bons desejos, as melhores intenções no rosto de cada um.

Em Domingo de Páscoa, os aromas das carnes assadas no forno, da sopa-seca e do leite-creme, ainda se esgueiram pelas lousas dos telhados ou pelas janelas abertas. Os ares da minha aldeia continuam a cheirar a tradição.

Escancaram-se portas e janelas, para que entrem o sol e as palavras, se possam trocar prendas e abraços, se mostrem propósitos e boas intenções.

A nossa gente faz da Visita Pascal o ponto forte deste Encontro.

Há sinais de que o Senhor anda fora. Ao som de alegres campainhas, Jesus passeia, uma vez por ano, pelos seculares caminhos das terras da beira-Paiva.

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