As histórias que a resina cruzou

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A fábrica de resina em Figueiredo Alva foi durante décadas um polo dinamizador da economia da região

As histórias que a resina cruzou

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Em tempos, a fábrica de resina de Figueiredo de Alva, S. Pedro do Sul, movimentava toda a economia local. Hoje está em ruínas. A azáfama que se vivia nesta aldeia nos anos 80 foi substituída pelo silêncio. Restam as memórias dos que por lá passaram e que recordam com um brilho nos olhos os tempos áureos da empresa. O contraste entre o que foi e o que é, a diferenças entre ter oportunidades na sua terra ou ter que emigrar para sobreviver. A Gazeta da Beira esteve na freguesia à conversa com os antigos colaboradores, uma viagem ao passado que quis resgatar esta atividade económica, antes que o tempo a apague.

 

A chaminé, imponente, avista-se de longe. Aproxima-nos. Pouco a pouco, avistamos o que resta da antiga fábrica de resinagem. Chegados ao local, é difícil poder imaginar a azáfama de outros tempos. O silêncio é ensurdecedor. As letras, mesmo desgastadas pelo tempo, ainda se conseguem identificar: “Fábrica de Produtos Rezinosos”, lê-se. As marcas de degradação são evidentes. Já não há maquinaria, o edifício está em ruínas, as silvas crescem e vão consumindo um espaço que guarda as memórias do passado e aguarda sem esperanças o futuro.

 

“A gema de pinheiro” e as mil e uma utilidades

A história da fábrica de resina cruza-se com as histórias de cada habitante de Figueiredo de Alva. São pedaços de vida que deixam marcas que o tempo não apaga. Muitas horas dedicadas a um ofício que depois dos tempos áureos acabou por esmorecer. São muitas memórias, rotinas, tradições e amizades numa encruzilhada de sentimentos que se traduz num só: a saudade.

Com apenas 17 anos, José Rocha começou a trabalhar na fábrica. De uma função à outra, passou a conhecer a empresa com a palma das mãos. “Tudo o que a havia na fábrica eu sabia fazer, ensinei o ofício a muitos.” Acompanhou as mudanças tecnológicas, viu o sector modernizar-se, tornar-se mais eficaz. Nada agoirava que, anos depois, toda esse desenvolvimento fosse em vão. Nos últimos anos da fábrica, acabou por ser encarregado. “Montaram lá um telefone ao pé de mim, era eu lá na caldeira que dava as ordens”. Apesar de saber ler escrever era na cabeça que tudo guardava. “Apontava tudo na cabeça, quantas toneladas, o grau, o dia do embarque… A minha caligrafia dava para entender, mas trocava as letras, assim era mais fácil”.

Também a história de António Costa se cruza com a da fábrica da resina. Lisboeta, depois do casamento, chegou a Figueiredo de Alva e por cá ficou. Hoje com 81 anos tem muito para contar, foram 33 anos dedicados a este ofício. Uma vida. “Todos os dias produzíamos três toneladas de resina… apanhei lá grandes escaldadelas, estava na “Dissolvição”, com o vapor e com a água quente a resina transformava-se toda no líquido, colocávamo-la num bidon gigante. Quando deitava fumo estava pronta a passar.”

Na fábrica transformava-se a resina em pez e aguarrás, depois, “a gema de pinheiro” era levada para o Porto de Leixões. António Costa fez muitas dessas viagens. Daí partia para o mundo e transformava-se em mil e uma realidades diferentes. Impermeabilizantes, colas, sabões, tintas, vernizes, borrachas…são só alguns exemplos.

Uma floresta viva

Por estas alturas, também a floresta era bem diferente. Eram muitos os que forneciam resina à fábrica. A floresta tinha rendimento e, como tal, estava limpa e humanizada. Maria Madalena, com nove anos já apanhava cavacas. Ocupava o seu dia entre a resina e a costura. Era feliz. “Era bom tempo, ganhava-se pouco, mas era muito bom tempo, vivíamos pobres mas vivíamos contentes, convivíamos, eramos como uma verdadeira família”. Conhecia bem a floresta, muitas vezes foi resinar, às mulheres cabia-lhes colher, aos homens renovar.

Amadeu Pinto chegou a ter mais de 12 mil bicas. Primeiro, “os homens tiravam o entrecasco do pinheiro e injetavam um ácido, depois a resina, a pouco e pouco, ia saindo da ferida através da bica, chamava-se a isso renovar”. Quando o caco estava cheio, era a vez de as mulheres entrarem em ação. “De quinze em quinze dias, ou de três em três semanas, as mulheres vinham colher. Com uma lata e uma colher recolhiam a resina para barris que depois seguiam para a fábrica”.

Hoje a floresta encontra-se abandona, triste e mais propícia à destruição. “Antes a floresta estava humanizada, ouvíamos sempre cantar, andamos no meio do mato sem medo. As pessoas que trabalhavam na floresta eram uns verdadeiros guardiões. A floresta estava limpa, havia conservação, não era fácil haver incêndios…. ao contrário de hoje”.

 

A queda de um negócio de sucesso

João Caseiro também chegou a ser encarregado, mas nos últimos anos, numa tentativa de salvar a fábrica tornou-se sócio, com plenos poderes. O antigo proprietário queria encerrar o negócio, mas foi persuadido pelo filho para continuar. Assim o fez. Passou o negócio para o filho que tinha começado a vida na fábrica. Este chamou João Caseiro para seu braço direito. De encarregado a patrão, João Caseiro, através de uma procuração tinha a fábrica nas suas mãos e deu o seu melhor por ela. Apesar do esforço, o final não foi feliz.

Apesar dos esforços não conseguiu aguentar o barco. “Os brasileiros e os chineses vieram com a mercadoria deles para o mercado. Tinha menos qualidade, mas era muita mais barata. Ficámos dois anos sem vendas. Se puséssemos a nossa mercadoria à venda ao preço da deles, ficávamos arruinados por completo. Nós tentamos aguentar, mas perdemos mais de 480 mil contos (cerca de 2 milhões e 400 mil euros) e não tivemos outra solução”. Uma vez que o investimento já estava feito, acabaram por vender o que tinham em stock pelo melhor preço que conseguiram, para conseguir pagar aos fornecedores. Depois fecharam as portas.

Quando geria a fábrica, por ano, João Caseiro percorria mais de 100 mil quilómetros. Havia noites que trabalhava pela noite dentro “muitas vezes, até às 5h00 da manhã, esquecia-me das horas”. Um dia que não conseguisse fechar um negócio era um dia perdido para ele. “Chegava à cama e perguntava, mas o que é que eu andei a fazer o dia todo?”. Só se apercebeu de como estava esgotado quando tudo teve um fim. Eram tantos os afazeres que naquele tempo “não pegava sono”.

Quando a fábrica se segurava por fios, tentaram uma última jogada. Era tudo ou nada. João Caseiro e os outros sócios, chegaram, várias vezes, a falar com o Ministro, mas nunca conseguiram obter ajuda. “Se tivéssemos tido ajuda do Governo tudo teria sido diferente, tínhamos conseguido sobreviver. Nós já tínhamos um estudo de relação entre os pinheiros e as bicas de cada proprietário, poderia ter servido de base para subsidiar os fornecedores. Nada foi feito.” A Fábrica da Resina encerrou há cerca de 10 anos. Numa década, quase tudo mudou.

A mesma freguesia, realidades díspares

Atualmente, vivem aqui poucas pessoas. Os mais novos foram obrigado emigrar, os mais velhos por cá continuam, com as pequenas reformas que vão dando para viverem remediados. Mas nem sempre foi assim. Figueiredo de Alva já teve muita vida e dinamismo. A fábrica de resina em muito contribuiu para isso, entre emprego diretos e indiretos quase toda a freguesia tinha a ganhar com esta empresa.

Na fábrica trabalhavam dez pessoas, mas, depois, havia muitos outros trabalhos. Entre fornecedores e distribuidores a fábrica mexia com toda a região. “A fábrica era muito importante não só para a freguesia e para o concelho, mas para toda a região. Creio que nessa altura, em toda a região, o ramo da resina, de uma forma ou de outra, chagava a dar emprego a quase 12 mil pessoas”, garante João Caseiro.

Amadeu Pinto concorda. “A fábrica era uma mais-valia muito grande, mais de 80% da economia desta freguesia era gerada pela resina e pelos seus derivados. Naquele tempo não era preciso emigrar como é hoje”.

Só agosto, quando os filhos da Terra regressam às origens, nas férias, é que Amadeu Pinto consegue vislumbrar os tempos passados, os da sua juventude. No resto do ano, a realidade é bem diferente. Poucos jovens, pouco futuro. “Se visse este café há 20 anos por esta hora, não ia acreditar, estava cheio! Agora, é que o se vê… três, quatro pessoas”, lamenta.

E se a fábrica regressasse?

José Rocha tem hoje 80 anos, depois de a fábrica fechar comprou um trator e dedicou-se às suas terras. Sempre que olha para a fábrica, a tristeza inunda-lhe o olhar, não esconde a nostalgia daquele tempo que passou, mas deixou marcas. Gostava que a Fábrica estivesse a laborar atualmente? Perguntamos. “Se gostava!…”, Responde sem hesitações, deixa as reticências no ar. Como se de repente esse sonho passa-se a realidade. “Tenho a minha terra ao pé da fábrica, sempre que lá vou, olho primeiro para fábrica só depois para a terra, tenho muitas saudades…foi ali que passei toda a minha mocidade”, acrescenta.

Também João Caseiro acredita que o negócio da resina podia ter viabilidade. “Era capaz de ter, mas era essencial haver apoio público no sector”. Para isso o antigo proprietário da fábrica defende que o melhor caminho passa pela criação de uma associação na região.

Em Figueiredo de Alva três pessoas voltaram a produzir resina. Uma esperança que nasce ainda que ténue. Dos três, como refere João Caseiro, o maior produtor no ano passado, teve quatro mil bicas, mas, este ano, quer aumentar para cerca de dez mil. “Custa começar, porque o mato está muito alto, mas atrás de uns vão os outros”, acrescenta.

Amadeu Pinto não esconde que gostava de voltar a “renovar” e vê com bons olhos que outros naturais da sua freguesia recomecem o que se acabou há uma década. Contudo, considera que os preços atuais não são muito aliciantes. “Não seria rentável, a pagarem tão pouco por cada ferida…teriam que dar muito mais valor à matéria-prima”

Ruínas que contam histórias

O futuro é incerto. O tempo passa e apaga paulatinamente o passado da “Fábrica de Produtos Rezinosos” de Figueiredo de Alva. Segundo o que a Gazeta da Beira conseguiu apurar a antiga fábrica já foi adquirida. Não se sabe que fim lhe será aplicado. Amadeu Pinto gostava de ver ali um museu. “Para preservar as memórias”, defende. Exatamente, para preservar as memórias contamos nós esta história. A da resina no concelho de S. Pedro do Sul e a das pessoas que viveram desta atividade económica.

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