António Bica
O Moço de Recados e as três Donzelas (continuação) - parte 22
O Moço de Recados e as três Donzelas (continuação)
Xerazade, sentindo que a noite se aproximava da madrugada, recomeçou a história do peregrino:
Quis o destino que passados três dias e três noites visse ao longe terra. Com as mãos remei até varar. Descansei, matei a fome com os frutos das árvores e procurei lugar habitado. Ao longe surgiu um palácio. Aproximei-me e vi que era em cobre. De uma porta sairam dez rapazes. Todos eram belos, mas cegos do olho esquerdo. Com eles vinha um velho imponente. Admirei-me de serem cegos. Aproximaram-se e saudaram-me. Retribuí e, porque perguntaram, contei-lhes a minha história. Ouviram, não ocultaram o espanto e a compaixão e pediram-me para entrar no palácio. Atravessámos largos corredores e salas e chegámos a salão com dez tapetes estendidos sobre colchões e um no chão. Todos se sentaram nos tapetes e o ancião no que não tinha colchão. Disseram-me: «Senta-te no fundo da sala e não questiones sobre o que vires. Todos comeram e beberam e eu com eles. O velho entrou e saiu dez vezes e de cada vez trouxe uma bacia coberta com pano e uma lanterna. Pôs cada bacia e cada lanterna diante de cada jovem. Quando levantaram os panos, vi que as bacias tinham cinza, pó de carvão e negro de fumo. Cada um pôs a cinza na cabeça, o pó de carvão na cara e o negro de fumo nas pálpebras. Choraram lamentando-se: «Sofremos o castigo dos nossos erros». Com o romper do dia, lavaram-se e puseram novos vestidos. Vi tudo sem comentar, mas grande era o espanto e a vontade de o exprimir. E, nas noites seguintes, o mesmo sucedeu. Não consegui conter-me e exclamei: «Dizei-me o que se passa. Porque perdestes o olho esquerdo e vos penitenciais com o carvão e as cinzas». Em coro repreenderam: «Desgraçado, a tua pergunta traz a perdição. Não poderás continuar connosco e vais perder o olho esquerdo». Dito isto, o ancião trouxe um carneiro que foi degolado e esfolado. Envolveram-me na pele e expuseram-me na cúpula do palácio. Disseram: «O grande pássaro, maior que um elefante, levar-te-á pelos ares até uma altíssima montanha, onde ninguém pode chegar, para aí te comer. Quando chegares, com esta faca cortarás a pele do carneiro. O grande pássaro, vendo que não és carneiro, mas um homem, não te devorará. Então hás-de caminhar até um palácio maior que este, revestido de ouro, com as paredes cravejadas de brilhantes, pérolas e esmeraldas. Aí serás punido com a perda do olho esquerdo. Que o teu destino se cumpra». E assim se passou. O palácio era mais esplendoroso do que me fora descrito. Na primeira sala quarenta jovens de grande beleza saudaram-me: «Somos tuas escravas. As tuas ordens serão prontamente cumpridas». Trouxeram bebidas, frutos frescos, tâmaras e doces. Massajaram-me, cantaram, tocaram e pediram que contasse a minha história. Quando chegou a noite, ordenaram-me que escolhesse aquela com que queria dormir. Escolhi uma ao acaso, porque todas eram inexcedíveis em beleza. No dia seguinte tudo se passou como na véspera e em cada nova noite dormi com nova rapariga. Assim correu veloz o tempo durante um ano. No último dia todas se lamentaram dizendo: «Tal como aconteceu com os jovens anteriores, também a ti temos que deixar, embora muito nos pese». Insisti pela razão e disseram: «Somos filhas de um rei e cada uma filha da mulher mais bela de cada uma das cidades do seu reino. Vivemos neste palácio à nossa vontade, mas todos os anos temos que ir ver o nosso pai. Por isso temos que te deixar». Propus-lhes esperar pelo regresso. Deixaram-me as chaves do palácio e tudo ao dispôr e partiram, dizendo: «Não entres na porta de cobre». Quando fiquei só, comecei a visitar os cantos do palácio. Cada recanto era surpreendente maravilha. Pensava que nada podia haver de mais belo, mas nova sala ou inesperado jardim deixava-me mais extasiado. Corri todos os recantos, indo de maravilha em maravilha, até chegar à porta de cobre. Lembrei-me da advertência de que ali não devia entrar. Mas o diabo entrou a tentar-me. Na verdade, como diz o poeta, nada há de mais tentador do que a proibição:
«Não tivesse Deus proibido/ a Eva a maçã do Paraíso,/ hoje ainda estaríamos/ nessa terra abençoada,/ livres da dor e da morte,/ que na verdade o pecado/ é o que é interdito/ e a irracionalidade./ Ao que é livre e aberto/ ilumina a luz do sol/ e o poder da razão.»
A tentação avassalou-me e abri a porta interdita. Dentro estava um cavalo negro de porte altivo ricamente arreado. Peguei-lhe nas rédeas, trouxe-o para o jardim e montei-o. Abriu grandes asas negras, levou-me pelos ares e desceu na cúpula do palácio revestido de cobre onde deixara os dez jovens cegos do olho esquerdo. Derrubou-me e, quando estava por terra, cegou-me o olho esquerdo com a ponta da asa e desapareceu. Os dez jovens aproximaram-se e disseram: «Cumpriu-se o que tinha que acontecer. Não poderás ficar connosco, porque não há lugar senão para dez. Seguirás até à cidade de Bagdade governada pelo califa Faro Alrachide. O teu destino ficará nas suas mãos». Cortei a barba e pus-me a caminho, como peregrino, até chegar a esta cidade sem igual onde encontrei estes companheiros. Quando o terceiro peregrino acabou a história, a jovem dona da casa disse: «Admirável é a tua história. Podes seguir o teu caminho». O peregrino respondeu: «Não sairei sem que ouça as histórias dos restantes companheiros».
A jovem disse ao califa, sem saber que o era, e aos que o acompanhavam: «É a vossa vez». O vizir contou a história que dissera à jovem que os recebera à porta do palácio. A dona da casa despediu então a todos.
No dia seguinte o califa ordenou ao vizir: «Traz-me as jovens do palácio e as suas cadelas». Quando chegaram, disse: «Procedestes bem comigo. Sou o califa Faro Alrachide e peço que me conteis a vossa história». Uma das donzelas avançou: «A minha história é surpreendente. Não deixarei de ta contar».
Xariar deu discreto sinal de ter de ir para a audiência do dia. Xerazade interrompeu a narração.
Ed800 (25/02/2021)
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