António, o mestre da cera

“Em Rede pela vida”, revela-nos mais um testemunho de vida

 

Em Carvalhais, S. Pedro do Sul, estivemos à conversa com o “Abelhas”. Nome pelo qual António Tavares é conhecido por muitos. Alcunha fácil de perceber, para quem conhece as abelhas como a palma da mão. Hoje com 76 anos é mestre num ofício que trabalha desde tenta idade: A cera. Um negócio de família que herdou do pai e passou ao filho. Num tom bem animado, entre pausas para uma ou outra anedota, foi contando as estórias de uma vida cheia de aventuras. Dos tempos em que a cera lhe deu o primeiro ordenado, à guerra colonial, aos tempos como emigrante na França… são muitos os relatos de uma vida sempre vivida com o entusiasmo de quem não quer estar parado.

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É assim que passa muitos serões com a família. Desde sempre o trabalho foi muito, as horas do dia nem sempre chegaram. Então era aí, na sua oficina que terminava o dia. A família reunida transforma a cera, ao mesmo tempo que troca vários dedos de conversas. A prova que negócios e família também podem ser uma boa conjugação. “A Família é uma categoria… estamos aqui, vem um, outro e cá nos reunimos. Se acabar às onze, acaba, se é à meia-noite é à meia-noite, se for à uma é à uma”, explica António Tavares.

Uma arte que já não tem segredos

Hoje, faz todo o processo quase de olhos fechados. Começou a lidar com a cera com apenas 5 anos. Já lá vai uma vida, pelo que, poucos ou nenhum segredos lhe reserva esta este ofício. “Oh, já não tem nada que saber, já aprendemos, agora, há que fazer o trabalho bem feito, prefeito é que é bonito”, impõe como princípio.

Diz ser completamente imune à picada das abelhas, sabe-lhe as manhas e é por isso que enfrenta as colmeias sem qualquer proteção. “Podiam morder-me as abelhas que quisessem”, garante.

A cera provém das colmeias “velhas”, depois de morrer os cortiços. O processo é demorado e exige minúcia. “Dá muito trabalho é muita hora. Primeiro, a cera velha é retirada. É tal e qual como se fazia o azeite antigamente. É cozida em água e apurada e depois é laminada”.

O primeiro “salário”

Começou a ajudar o pai desde cedo, mais foi na juventude que começou a ganhar gosto pelo ofício, quando recebeu o primeiro pagamento, ainda que só tenha lucrado três escudos. Da feira de Oliveira de Frades tinha trazido um saco de cera, tinha-lhe custado 27 escudos e foi revendê-la ao pai. Depois, na oficina a cera velha era reciclada e tratada e voltava ao mercado, com muito mais valor. “Cheguei ao meu pai e disse que tinha comprado esta cera por 27 escudos, o meu pai pegou em trinta escudos, deu-me e disse: viste já ganhaste dinheiro.”

Não ficou contente com o pagamento que considerou pouco pelo trabalho. António não voltou a repetiu o erro. Regressou à Feira de Oliveira, no domingo seguinte e veio carregado. “Cheguei a casa com dois sacos enormes de cera. Era suja, tinha traça. Para as pessoas não valia nada e portanto deitavam fora, mas para nós, como era para cozer e reaproveitar valia o mesmo”. Não gastou, portanto um cêntimo. Quando chegou a casa, o pai perguntou quanto tinha custado, mas o “Abelhas” tinha a lição estudada. “O pai não tem nada a saber quanto é que eu dei pela cera, dá-me o que achar justo. Ela vale ou não vale cem escudos”, perguntou. A estratégia resultou. “O meu pai pôs na balança e deu uma data de quilos e deu-me os cem escudos. Comecei daí em diante a ganhar dinheiro e ter gosto na vida, comecei com esta profissão sempre a andar. A partir daí ia a todo o lado”.

Nasce o cereiro de Carvalhais

E assim começa a história. António Tavares passa dedicar-se de corpo e alma a cera. “Subia a serra, ia ter com os apicultores, tirava-lhes o mel… na atura era tirado à mão e muitos tinham medo de serem picados. Não lhes levava nada. Em troca, a maior parte deles dava-me a cera e a comida… depois, vinha e vendia ao meu pai.”

Assim, começou a amealhar algum dinheiro e a sonhar com o futuro. Longe os tempos em que “passava mais de um ano com uma moeda de 20 escudos do no bolso e não a gastava. Sabe porquê? Porque não sabia quando viria outra!”, Recorda.

As partidas da vida

Os tempos da juventude de António Tavares coincidiram com o Estado do Novo. Como muitos jovens no país foi para a Guerra Colonia. Foi enviado para o Norte de Moçambique, ocupou o cargo de “primeiro-cabo radiografista, na companhia número 300, caçadores especiais”, disse-nos como a entoação característica de quem é militar.

A guerra não era futuro, soube-o desde cedo. Por isso, tentou um plano B: emigrar clandestinamente para França. Uma experiência que quase lhe custava caro de mais. “Paguei a um indivíduo oito contos, para ele nos meter em França, mas, infelizmente, havia a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) que nos apanhou na fronteira. O rapaz que nos levava disse logo: desenrasquem-se que isto está mau e desapareceu”.

“Dos oito homens que iam comigo, todos foram presos e vergastados”, recorda. António foi o único que conseguiu fugir. “Se eu estive na Guerra e nunca ninguém me bateu ia apanhar, agora, na minha terra, em Portugal? Nem que se lixassem. O que é que fiz? Fugi deles, fui a rastejar pelo monte fora, ainda mandaram uns tiros, mas consegui escapar são e salvo”.

Correu. Correu até conseguir encontrar uma boleia que o levou ao destino. “Um camião conduzido por um rapaz alemão que falava um pouco português parou e levou-me. Viu que eu estava todo molhado e ainda me deu outra roupa.”

Vida de emigrante

Em França esteve dez anos. O objetivo estava definido era poupar para voltar a Portugal. Trabalhava de solo a solo. “De segunda à sexta trabalhava para o meu patrão, aos fins-de-semana, aproveitava e trabalhava por conta própria. O dinheiro que ganhava ao sábado e ao domingo dava para me ir governado, portanto, o ordenado que recebia, enviava-o todo para o banco em Portugal para poupar. Foi assim que comprei tudo o que tenho.

Casou com Dulce, da mesma terra e chegaram a estar os dois emigrados. Viviam bem em Paris, mas o coração falou mais alto e voltaram para Carvalhais.

De aprendiz a mestre

O pai de António teve um ataque cardíaco e foi obrigado a parar. O “Abelhas”, incitado por muitos que não queriam ver o negócio morrer, decide continuar. À cera dedicou a vida. Com a esposa a colaborar, muitas noites o trabalho durava pela noite dentro. “Muitas vezes estávamos na oficina até às três da manhã. Não conseguíamos vencer tanto trabalho”. António Tavares chegou a ter dois empregados, mas depois, com os filhos crescidos, quis que este fosse um negócio só de família.

A cera de Carvalhais de qualidade singular, garante, ganhou fama em todo Portugal. De todo o país passou a receber encomendas. Por ano, produzem várias toneladas.

Hoje, António Tavares já é reformado, “aposentei-me para ficar mais novo, não é o que dizem?” brinca. O negócio passou-o ao filho. “Eu aqui já não mando nada”, disse-nos quando nos mostrava a oficina. Pode não mandar, mas longo que chegou arregaçou as magas e pôs mãos à obra. Não quer, não vai parar, “não gosto de estar quieto, nem calado”, sublinha.

 

Projeto em Rede Pela Vida

Entidade Promotora ADRL

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Projeto apoiado pelo EDP Solidária Barragens

PrintRedação Gazeta da Beira