António Manuel Girão de Almeida

Pessoas com estória

Ed681-Girao_IMG_2046(1)Já todos nós deparámos com pessoas, com grupos ou famílias que, realmente, nos surpreendem, nos tocam, nos fazem sentir que afinal o ser humano tem inúmeras virtudes. Contudo, por uma ou outra razão, essas pessoas, esses grupos, essas famílias…ficam, quase sempre, no anonimato, perdendo-se a oportunidade de contar uma bela estória que poderia ser um estímulo, um modelo inspirador, uma mudança, uma mais valia num mundo que, como sabemos, carece de bons exemplos.

É, pois, sem pretensiosismos, nem moralismos que hoje aqui se inicia esta rubrica, que ao longo de quinze crónicas pretende, unicamente, dar a conhecer pessoas, famílias, colectividades, instituições cuja estória achamos deve ser contada, nem que seja apenas para merecer a nossa reflexão.

 

QUANDO A ALDEIA MORRE A FAMÍLIA RESISTE

O nome Joana Martins pouco dirá à maioria dos nossos leitores, no entanto, para além de ser uma aldeia bucólica, adormecida no sopé da serra do Caramulo , é morada da família que inspira esta crónica.

Segundo a lenda, o topónimo deste lugar da freguesia de Ventosa, concelho de Vouzela, deriva dos seus primeiros habitantes se terem chamado precisamente Joana e Martins. Contudo, esta denominação carece de confirmação.

Joana Martins, atualmente, tem 21 moradores, na sua maioria idosas, sendo que até há poucos meses apenas havia uma jovem com menos de 20 anos( acerca de  3 meses  nasceu um menino e recentemente um jovem casal regressou de França com os seus 2 filhos), precisamente a Daniela ,o membro mais novo da família Rodrigues ,da qual passaremos a falar.

A família Rodrigues é constituída pelo senhor José Rodrigues e pela D. Irene Silva, os pais da Daniela. Segundo reza a história, e conta o senhor José, um belo dia, ele madeireiro de profissão e residente em Levides, Cambra, aqui veio cortar uma árvores e se enamorou pela jovem Irene que, filha única, com ele se casou , mas “ com a condição” de  em Joana Martins ficarem a viver a viver.

A vida do casal ganhou novo alento com o nascimento da Daniela, em 2003. Contudo, a aldeia foi perdendo gradualmente os seus habitantes, as casas começaram a exibir as agruras do abandono e os que ficaram tiveram que se ir adaptando a uma realidade em que para além do isolamento, também a solidariedade que, segundo a D. Irene: “ antes do 25 de Abril não se conhecia a palavra, mas ela existia, depois deixou de se praticar, apesar de muito se falar dela”.

A tudo isto, e mesmo a uma terrível doença que fez tremer a vida da D.Irene e causou a aflição dos seus , a família foi resistindo, sem nunca pensar em abandonar um pedaço de terra, que apesar das dificuldades, sempre os uniu, alimentou e proporcionou momentos felizes.

Com o tempo, a Daniela foi crescendo e demonstrando sempre empenho, educação, alegria e, sobretudo, a vontade e a persistência de um dia poder concretizar os seus sonhosv(Que são muitos e legítimos!). Hoje, com 12 anos, concluiu o 6.ºano com óptimas classificações e está preparada para enfrentar os novos desafios que se lhe irão apresentar, pois os valores transmitidos pela família são alicerces bem fundos que irão resistir aos abanões da vida.

Concluímos com a incerteza quanto à capacidade de Joana Martins resistir à desertificação galopante das nossas aldeias, mas com a certeza quanto ao sucesso da família Rodrigues e da Daniela, em particular.

António Manuel Girão de Almeida – (Professor)Redação Gazeta da Beira

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