António Manuel Beirão

Os cidadãos e os incêndios

Sem prejuízo de outras averiguações ainda em curso, de acordo com o Relatório da autoria do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, datado de Outubro de 2017 e acessível publicamente no endereço https://www.portugal.gov.pt/download-ficheiros/ficheiro.aspx?v=3bb9773b-59fb-4099-9de5-a22fdcad1e3b, relativo aos incêndios que tiveram lugar em Pedrogão Grande, no dia 17.06.2017, ceifando a vida de mais de sessenta pessoas, e que ficam para a história como dos piores ocorridos em Portugal (e na Europa), o incêndio mais grave teve origem na falta de limpeza da área de protecção das linhas eléctricas ali existentes. Citando o relatório: “O incêndio mais grave resultou das ignições de Escalos Fundeiros e de Regadas, que, em nosso parecer, terão sido causados por contactos entre a vegetação e uma linha elétrica de média tensão”.

A mesma entidade concluiu ainda que muitas das pessoas que vieram a falecer foram colhidas em plena fuga, em estradas cuja falta de limpeza da vegetação circundante foi causa de incêndios. Voltando a citar: “A falta de limpeza da envolvente das estradas permitiu que muitas pessoas fossem colhidas em plena fuga, pelo fumo e pela radiação do incêndio, pelas chamas da vegetação em redor e mesmo por árvores caídas na própria estrada. A quase totalidade das vítimas morreu quando tentava fugir de carro pela estrada..”

O desprezo a que a zona de protecção da rede eléctrica tem estado destinada, bem como as bermas das estradas, nacionais ou municipais, são uma evidência desde há vários anos, e em todo o território de Portugal. Não é pois de estranhar que, chegado o tempo seco, estas zonas sejam potenciais focos de incêndio, numa triste e trágica competição, para ver qual primeiro origina um fogo.

Pior ainda quando muitos de nós teimam em prosseguir em comportamentos grosseiramente negligentes (para não falar dos criminosos), como sejam o lançar cigarros acessos pelas janelas dos automóveis ou realizar churrascos no pino do Verão, à sombra dos pinheiros.

Em Dezembro último, numa caminhada que fiz pela região, deparei-me como a situação retratada nas fotos: postes de alta tensão a disputar o sol com o arvoredo, linhas eléctricas tombadas na floresta, bermas repletas de lixos (papel, plástico, garrafas), nalguns locais com mato de mais de um metro de altura a colar com a estrada.

A situação das linhas eléctricas tombadas na mata pareceu-me urgente, e dela dei conta à edilidade, ao menos para que pudesse ser identificada a empresa responsável e alertada a mesma para a situação existente.

Tal alerta deve ter caído em saco roto, pois que em resposta à minha comunicação, em vez de me ser solicitada informação relevante sobre os factos (nomeadamente a localização concreta das linhas caídas), fui antes objecto de um pedido de identificação pessoal, incluindo número de contribuinte…

A manutenção e limpeza, quer da zona de protecção das linhas eléctricas, quer das bermas rodoviárias, ainda não são – ao que julgo saber – da responsabilidade do cidadão, mas sim das empresas e entidades que exploram tais actividades, tarefas que não podem deixar de ser permanentemente exigidas pelos poderes públicos.

Enfim, em matéria de incêndios, o cidadão (o Povo) é recordado em duas ocasiões: Quando o fogo lavra bem forte para, com os seus meios rudimentares (baldes de água, ramos, eu sei lá…), salvar vidas e bens; Ou, quando o fogo está no defeso, para pagar as intervenções que outros responsáveis, há muito, negligenciaram.

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