António Gouveia

40 anos depois de abril, a mesma luta, a mesma estúrdia, a mesma bagunça!

Ed653_AGouveia“Comerás o pão com o suor do teu rosto”, diz a Bíblia, punição dada pelo senhor Deus à humanidade figurada em Adão e Eva, castigo por os pais da humanidade não terem sabido resistir ao mal, o mesmo é dizer, a ambição (ilusão do bem) a qualquer preço, espécie temporã do maquiavelismo filosófico. Não tenho dúvidas, a riqueza vem do trabalho, o suor do rosto que nos foi imposto sofrer, suor físico, húmido, ou intelectual, de calafrio. A riqueza, parecendo embora, não vem do capital. Mas, se for grande o abuso do suor dos outros, então sim, acredito que o capital engorda (como vem engordando) com o trabalho. É um facto histórico que esta confusão – trabalho e capital -, vem de tempos ancestrais, o mundo sempre pariu indivíduos propensos à exploração do trabalho dos outros, gente de olho aberto, sempre à espreita da distração do vizinho, gente com olho para os negócios, como se diz e ouve.

E se esta lição de economia projeta a sociedade, também a distorce, é o que o marxismo apelida de explorados e exploradores, economia balizada nas chamadas classes sociais: baixa, média, alta, muito alta, trabalhadores e capitalistas, toda uma luta de séculos hoje bem mais adormecida, classes cada vez mais distantes entre si apesar de o patamar baixo e térreo de há 40 anos estar hoje mais acima. Parece (e é) um paradoxo, mas continua facto enquistado.

No tempo de Salazar criticava-se por uma dúzia de famílias dominar o país. Por isso a revolução de abril teve, no seu ideário populista, o objetivo de acabar com os ricos. Foi pena não ter ousado acabar com os pobres. Hoje e curiosamente (ou nem por isso) o país continua a ser dominado por duas dúzias de famílias (aumentou o número, a economia e o capital, aumentaram os negócios, ela e ele globais), meia dúzia resiste desde Salazar, apesar de um hiato no poder e caminho difícil e conturbado logo a seguir à revolução. O ideário e as utopias esfumaram-se, a revolução de abril foi mundo de pias intenções e, tal como em revoluções anteriores, muitos os erros, louco e utópico esse idealismo com más decisões e interesses nebulosos em disputa e permeio. O costume, o bem dá muito trabalho e aborrecimento e, convenhamos, há sempre quem se aproveite, afinal o mundo é dos espertos.

Curiosamente ainda, o número de explorados continua maior que o dos exploradores mas são estes os que dominam e aqueles os que servem. Apesar da perseguição, da censura e da polícia política, os sindicatos tinham força antes de abril, lutavam e faziam-se ouvir, mesmo quando arrostavam penas dolorosas em Peniche ou Caxias. Hoje em dia, apesar da liberdade, os sindicatos são o que são, gente amancebada com a partidocracia (sindicalismo, outra forma de partidocracia), gente especialista na logística das manifestações mas repetitiva, inconsequente e pouco assertiva nos objetivos. Talvez por isso eu não saiba hoje o que é isso de esquerda ou direita; talvez por isso eu não tenha pachorra para “políticos de meia tigela”, sejam eles sindicalistas e serventuários dos trabalhadores ou políticos de carreira serventuários do regime (claro que há exceções); talvez por isso eu acredite convictamente que as ideologias jazem nos escombros do comprido e já demolido muro de Berlim; talvez por isso eu seja bastante crítico da liberdade, valor que a esquerda defende como seu e da propriedade, valor que a direita diz ser dela. Mas o que mais me irrita nesta esquerda de lantejoulas que se saracoteia indolente por aí, é quererem comparar o Portugal de há 40 anos com o Portugal de hoje como se a sociedade fosse produto de ideologias balofas e não da evolução do trabalho, da ciência e da tecnologia. Quererem comparar a lousa preta de Salazar ao Magalhães de Sócrates! Querem comparar a economia e as finanças (poupança e esbanjamento) personificadas num e noutro! O mesmo é dizer querer comparar a miséria de dos tempos de Salazar com a miséria de hoje, de Passos e Portas!Redação Gazeta da Beira

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