António Gouveia
Legislativas em tempos de mudança
Legislativas em tempos de mudança
Os resultados das legislativas não me surpreenderam; como não me surpreenderam seguristas e outros apeados do PS a pedirem a cabeça do secretário-geral na noite eleitoral; ou o resultado do BE, já aqui tinha escrito que Mariana Mortágua merecia ser eleita para o parlamento, brilhante a atuação na CPI ao grupo BES onde foi clara, determinada, competente e consistente, tão brilhante quanto a líder Catarina Martins a explicar ao que vinha e a “arrasar” nesta campanha eleitoral; ou ainda os votos de Viseu e de Vila Real na coligação vencedora, uma percentagem anómala que, a par da abstenção que ali se contabilizou, traduz um perfil de eleitor fortemente conservador e fora do país real, uma região sem capacidade de reação ou de crítica à deriva dos partidos, PSD incluído. Surpreendeu-me, isso sim, a votação da Guarda onde o agressor dos idosos e inventor da expressão assassina e despudorada “peste grisalha” consegue ser reeleito, como se esta cidade fria, mas fraca e feia na reação – as beiras já não são o que eram -, não acolha nas suas muralhas muitos aposentados ou pensionistas com coragem, vergonha na cara e raiva para usarem o voto como arma de arremesso e esconjurar este tipo de agressões de índole nazista afastando o advogado sem categoria.
Mas o que mais me surpreendeu – e disso até a comunicação social fez eco, ignorando percentagens e matemática, não fez o trabalho de casa – é quererem comparar o resultado de um só partido, neste caso o PS, com o resultado obtido por dois partidos, o PSD mais o CDS, que urdiram com muita inteligência uma teia e coligação que batizaram PàF em estratégia que se revelou eficaz e vencedora. No entanto, se compararmos o que aconteceu em 2011, chegamos a uma conclusão ineludível e inelutável: o resultado obtido pelo PS nestas legislativas foi melhor do que aquele que obteve o PSD. Admirado, leitor? Uma simples regra de três basta para o demonstrar. Vejamos: se o PSD obteve 39 % e o CDS 12 % em 2011, verificamos que, juntos, atingiram 51 % o que compara com 37 % da coligação PàF agora e traduz numa perda de votação de 14 %. Ou seja, diluindo a percentagem agora obtida por ambos os partido e extrapolando-a de forma proporcional para o resultado de 2011, temos que o PS obtém agora mais 3,8 % do que o PSD; ou seja, os 32,4 % do PS no passado dia 4 comparam com os 28,6 % do PSD em 2011. Não, caro leitor, não se trata de sofisma matemático, até porque não sou socialista, mas antes uma conclusão do tipo “quod erat demonstrandum”, teoremas que estudei no liceu há muitos anos, Thales e Pitágoras e que nada têm a ver com a surpresa de Galamba, o espanto de Brilhante Dias ou o choque de Ana Gomes. O parlamento tem agora uma maioria – eu nem sei se ela é de esquerda ou do centro -, os adeptos da social-democracia dividem-se entre a esquerda do PSD, a direita do PS e porventura, em pequena percentagem, também pelo BE, esta sim é que é a franja central e maioritária do espetro político nacional. E esse é o busílis desta democracia que alimenta alguma instabilidade nas votações, o que nem é mau.
Por isso fez bem António Costa em não se demitir do cargo de secretário-geral para ir à luta, se é que os camaradas vão deixar (o PS anda há muito em bolandas e lutas internas) para poder afirmar-se como travão desta política de austeridade pois, se quiser sobreviver, vai ter de a ajudar a rever. Mas será bom que o PS perceba também que mis uma vez repetir a política de “novos-ricos” mas empenhados até às orelhas e com uma dívida externa esmagadora, insuportável e insustentável, de corruptos e gastadores não nos convém nada (só a secundária de Oliveira, um dos muitos exemplos da Parque Escolar, esgotou 18 milhões de euros, uma vergonha e atentado à nossa inteligência no esbulho dos nossos impostos). Pessoalmente julgo que não nos safaremos se esta dívida não for reestruturada, o mesmo é dizer, perdoada numa parte substancial, objetivo e anseio agora mais perto e legitimado. Porquê? Exatamente por causa de outra vergonha, de outra estória, e de outra “trafulhice”, a da esperteza saloia da Volkswagen – não existem só corruptos em Portugal, a corrupção e o latrocínio são abrangentes, sempre existiram mas medram agora ainda mais por todo o lado com a globalização – numa Alemanha que julgávamos organizada e disciplinada. Erradamente, está à vista, a ética intocável e inatacável da pátria de Kant que decidiu imitar Maquiavel, é agora e mais uma vez também defensora da teoria de que qualquer meio pode ser utilizado para justificar os fins em vista, neste caso ganhar milhares de milhões de euros em lucros, rendas e dividendos e com eles poder comprar dívida pública de países em dificuldades, Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, entre outros. Será que António Costa irá bater o pé e convencer Passos Coelho a não continuar a dobrar a cerviz a Berlim, a Bruxelas e ao FMI? O caminho é por aqui e não o de o próximo governo continuar a esbulhar pensionistas e reformados nas suas pensões agitando o papão da dívida; reformar sem tibieza a administração pública; reformar o regime das pensões e a segurança social e, por tabela, as IPSS que dela dependem, algumas mal geridas, com pessoal a mais e sem qualidade; flexibilizar as leis do trabalho endurecendo formas de melhor regulação e fiscalização, não permitindo abusos de patrões ou trabalhadores; e, por fim, rever a lei eleitoral com a opção de escolha de candidatos em listas uninominais em círculos distritais e um nacional. Termino voltando às percentagens da votação do dia 4: já repararam que se o PS tivesse feito também uma coligação com o BE, ou com o PCP/PEV, atingiria uma votação de quase 43 %, superior aos 37 % da coligação PàF?
Não é verdade que a união faz a força? Não é verdade que a coligação PàF foi mais inteligente, subtil e ardilosa? Não é verdade que há luz e trevas e os filhos de uma e de outras não são iguais? A questão é que eu não sei, em política, quem são os pais de uns e de outros, é só trevas, não enxergo o caminho, é escuro e com cantos esconsos.Redação Gazeta da Beira
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