António Gouveia

Ao padre Antonio Ino, missionário italiano em Portugal e Moçambique

Ao padre Antonio Ino, missionário italiano em Portugal e Moçambique

Foi a forma encontrada para falar da grandeza e humildade deste italiano de tanto  merecimento, ainda menino, com ele aprendi a ser gente, apesar de não ter podido seguir a sua vocação não desperdicei os seus ensinamentos e exemplo, o serviço aos outros, sempre me acompanharam ao longo da vida. Já reformado da fadiga profissional, muito calcorreio cigano, 12 vilas e cidades deste país a fazer pela vida e ganhar o pão nosso de cada dia, pude aceder ao repto de ser presidente da junta da freguesia onde resido aqui no Porto, outra forma de ser missionário. O P.e António chegou a Portugal em 1955, encontrámo-nos no seminário dos Combonianos em Viseu, eu com 11 anos, ele com 25, e nas férias de agosto, todos os anos, na quinta do Faleiro, em Arcozelo, tempos de muitas dificuldades, pouco dinheiro e fartura. Designado  prefeito responsável pela minha turma, ordenou-se padre em 1959, também professor de italiano este ex-professor primário de Lacedonia, província de Avellino, perto de Nápoles. Faleceu em Viseu no dia 2 de junho, onde regressara, aos 90 anos, 36 em Portugal e 30 em Moçambique, vida de missão e serviço intenso aos outros. A ele e outros italianos que então vieram para Portugal no final da guerra devo muito do que sou. Guerra muito dolorosa, contava-nos de Mussolini e período negro do fascismo italiano os abusos e assassinatos dos arditi e fasci di combattimento, seguidores do Duce, e, nos bombardeamentos, quando saiam para a rua, los penicos de esmalte enfiados na cabeça imitando os capacetes dos exércitos em combate. A ele devo aquilo que mais tarde conheceria como política, ciência que sempre me cativou. Muito da minha educação e experiência nos Combonianos em Viseu e Famalicão (seis anos) foi um misto de ensino luso-italiano, com eles aprendi também a história da Itália, da fundação de Roma ao império romano e ao renascimento, da monarquia à república e ditadura, o latim e o grego, a antiguidade clássica e os seus autores. O P.e Ino Antonio – em Itália, o apelido vem antes do nome próprio -, juntava aos seus ensinamentos os do seu colega português, o Prof. José Tojal que me acompanhou durante toda a primária em Oliveira, fundindo e amalgamando conhecimentos de muito préstimo e utilidade na minha vida.

A minha ida para o seminário, um ato espontâneo, quiçá ato falhado no encerramento do antigo colégio lafonense, predestino ou desígnio, na velha escola aparecera outro missionário italiano de barbas, Angelo de seu nome, também Comboniano, com as aventuras de África perguntou-nos se queríamos passar 15 dias de férias em Viseu, o ano letivo já no fim. Sem saber ou dar conta, fui o único a levantar a mão, surpreendi professores e colegas, admirados da ousadia do lingrinhas ou fivelas (pulga, era a alcunha). O P.e Angelo tomou nota, falou com o Prof. Tojal e mulher, a D. Maria da Glória, também professora e foi falar com os meus pais ali a 200 metros, na pequena viela do centro histórico, todo nosso, meu, de meu irmão e colegas, o recreio (da escola) e o adro e torre (da velha matriz) as fortalezas. Acederam, fui experimentar, gostei e fiquei. A vida familiar daria uma volta quando meu pai faleceu em Lourenço Marques, mãe e quatro filhos, eu, o mais velho, já no 5.º ano. Desisti a seguir e sem dizer nada, fiz-me voluntário para a Força Aérea, corria o ano 1961, a guerra colonial rebentara, Nehru arrebatara Goa, Damão e Diu, António Salazar reclamava: “Para Angola, rapidamente e em força!” Não fui  rapidamente, só em 1965, a tempo de dar aulas na BA9 de Luanda, missionar e colonizar, isto é, habilitar a exame da 4.ª classe jovens soldados ali a prestar serviço militar: brancos, negros e mestiços, vida de militar, colono e missionário, sem arrependimentos. Muito do que hoje se diz por aí e escreve pouco adere ao que foram esses tempos, esquecem-se do que escreveu Fernando Pessoa: “A realidade sempre é mais ou menos do que nós queremos … só nós somos iguais a nós mesmos”. A presto, Padre Antonio Ino, Ci vedriamo, Grazie tante, Arrivederci.

10/06/2021

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