António Gouveia*

Vai ser distribuída a sopa dos pobres

N.º de Escalão de Quem suporta  N.º de Escalão de Quem suporta
Agregados rendimentos (€) o IRS Agregados rendimentos (€) o IRS
677.673         0 –    5.000 1,3% 231.445 32.500 –  40.000 9,3%
1.446.100  5.000 – 10.000 1,1% 187.013 40.000 –  50.000 11,0%
841.952 10.000 – 13.500 3,0% 261.496    50.000 – 100.000 30,0%
783.469 13.500 – 19.000 5,4% 47.939 100.000 – 250.000 16,0%
689.398 19.000 – 27.500 10,2% 4.180  250.000 e mais 6,4%
237.623 27.500 – 32.500 6,3%   No ano de 2019  

 

“Uma sociedade precária não é resiliente” – diz o PM na Cimeira Social Europeia aqui no Porto quando escrevo este texto. Basta analisar o quadro acima que o JN publicou para perceber: dos 5.408.288 agregados que temos, mais de 5 milhões ganham por ano entre 0 e 50.000€.  Ou seja, os cidadãos portugueses são resilientes e estoicos, só não veem as suas vidas a recuperar, os salários são mesmo precários. Charles Michel, presidente do Conselho Europeu diz bem: “a bússola europeia não pode ser o PIB, tem de ser o bem estar dos cidadãos”. Por isso os líderes europeus  vão comprometer-se a cumprir metas concretas de emprego, formação profissional, redução da pobreza e exclusão social para combaterem mais de dois milhões de portugueses nesta situação. Tudo bem, há muito dinheiro para distribuir, permanece a eterna pergunta: vai repartir-se a dose do passado e, sumidos os fundos, fica tudo na mesma, é mais do mesmo? O PRR tem de ser levado a sério e comprometer todos: governantes, cidadãos, ricos e pobres. Como é que isto se faz? Ninguém sabe, andamos todos em polvorosa, a cidade do Porto pejada de nomes sonantes, ouvem-se muitas sirenes nas viaturas que transportam caras conhecidas, são outras as sirenes que devemos ouvir para nos chamarem à realidade.

A realidade está na pandemia que começa a aliviar como previ na edição de 31 dezembro no texto “Em abril águas mil”, levada na enxurrada, é bom, mas não chega. Adivinho sequelas difíceis de ultrapassar, oxalá neste PRR, a Recuperação seja eficaz e a Resiliência resulte, andamos todos muito fartos desta democracia, discute-se e barafusta-se muito, realiza-se muito pouco. Odemira é mais um dos muitos casos que o retrata, todos a assobiar como se ali fosse Olivença e pertencesse aos espanhois que nos sugam a água do Alqueva em olivais a perder de vista. Pobre Portugal, tão longe nos vais ficando! O Governo e ministérios coniventes com esta desgraça, administração pública e sindicatos, ninguém sabia dos milhares de novos ‘ratinhos’ asiáticos e não beirões da década de 50 que rumavam  ao  Alentejo para a apanha da azeitona não mirtilos e frutos silvestres. Curioso, menino ainda, via-os sentados, apinhados na estação de Oliveira à espera do comboio, sacos e tarecos ao lado, mai-lo palhinhas de 5 litros, inseparável companheiro viagem. Repete-se a história, já não há ratinhos, os melhores demandaram a Europa, ninguém deu conta, falta gente para trabalhar e gerar riqueza, o PIB, outros aproveitam. Estou descrente e pouco resiliente, o panorama é negro, esta democracia não satisfaz, uma economia depauperada substituirá a pandemia, o ministro Cabrita diz do CDS ser um partido náufrago, mentira os náufragos somos nós. O PM António Costa também anda nervoso e meio perdido, diz tolices de Rui Rio, “cata-vento, homem sem princípios”. É mentira, com sentido de estado, poupa-o e não o zurze e ao Governo como mereceriam. Preparemo-nos, pois, vai ser distribuída a sopa dos pobres, quando ela acabar o futuro não vai ser fácil, queria muito estar enganado e poder desabituar-me de um país assim e muita pedincha.

* Autarca

13/05/2021


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