António Gouveia*
Eppur, si muove, mais uma vez
Edição 801 (11/03/2021)
A vida continua a mudar-se a um ritmo menor que o da Terra de Galileu, clamorosamente, movimento inexistente para Aristóteles, decorreram 2.000 anos para que o pisano demonstrasse que o antigo filósofo e cientista grego estava profundamente errado: o sol não se movimentava, não nascia nem havia por do sol, era uma falácia, engano, erro de paralaxe, uma ilusão. Eppur si muore, também é verdade, um símbolo gráfico, uma letra faz a diferença, muito grande, entre vida e morte, movimento e inércia. Já não se morre tanto, a pandemia dá sinais de abrandar e se retirar, se Deus quiser, foi o que aconteceu na pneumónica, fulminou milhões desde 1917 e partiu em 2018, passaram 100 anos. Deus a leve e não volte, não precisamos dela, apesar do efeito desagradável, mas benévolo do confinamento, obrigou-nos a parar e pensar, perdêramos o hábito, faz-nos falta nestes tempos de alucinação, aturdimento, desgaste e impaciência. Meditação e exame de consciência eram coisas do passado, não havia tempo, eram ideias de padres e religiões, nem eles têm tempo, mas Francisco bem se esforça, corajoso, foi até ao Iraque dar o exemplo, fez bem, tenho pena de o ver muito alquebrado, Deus o guarde.
Houve um tempo, outro tempo, em que se ouvia falar da geração rasca. Mais adiante, da geração à rasca. E agora? O que se passa com ela? Por onde anda e o que faz? Pessoalmente, consta das estatísticas, sei estar em decréscimo e em profunda mobilidade. Lá está, eppur si muove, também ela mais do que nunca, muitos jovens abandonaram o país, foram para o estrangeiro, não é mau para eles, é muito mau para quem cá ficou e para o país, vão e não voltam. Tal como os operários e artistas de todo o tipo, por aqui faltam cada vez mais, aqui não há condições, abalam e não regressam, são dos melhores. Dizem que esta nova geração está mal preparada, só a que fica apesar das exceções excecionais, passe o pleonasmo, poucas, a regra inverteu-se, passou a ser a exceção nestes novos tempos. Com uma diferença: quando era jovem, ao tempo que isso foi, estávamos obrigados a aprender a fazer qualquer coisa, na loja, na carpintaria ou nos campos , se preciso fosse com um empurrão abrutalhado, era a pedagogia usada e, quem não queria estudar ou não deixavam, compensava-os essa aprendizagem de voluntariado à força, faziam-se homens e mulheres, bons artistas, coisa rara hoje.
Rui Rio surpreendeu na lança que atirou sobre Lisboa, Carlos Moedas, ninguém esperava, ele sempre foi assim, conheço-o bem, foi assim que ganhou o Porto, acompanhei-o nesse desígnio, tinha-me reformado, estava livre, tinha tempo, podia ajudar, a política é isto, precisa muito. Já se conhecem alguns dos 308 candidatos a presidentes de câmaras: Almeida Henriques, em Viseu e Rui Lacerda, em Vouzela, sem surpresa. Sim, a de João Valério para Oliveira de Frades, boa aposta, pessoa discreta e sensata, cidadão avisado, se se rodear bem e conseguir construir um “executivo forte”, como prometeu José Batista, líder concelhio – não é fácil, di-lo a minha experiência, os compromissos terceiros e negociações sempre complicam. Para já, tem um excelente apoio na assembleia, outra boa escolha, pessoa de excelentes referências, José Bastos. Adivinho um “bom combate”, “et pour cause”, saltou-me esta expressão de S. Paulo, será que Paulo Ferreira é de novo candidato? Seja como for, se for e qual for o desenlace final, Oliveira pode ganhar, desta feita, um bom executivo para uma vez por todas, traçar um bom plano de atividades e investimentos para o concelho, ou seja, governar bem e sem pressa, também resolver o que tem sido adiado e (mal) desenrascado, por exemplo, a questão do abastecimento de água e saneamento, num projeto a delinear para um ou dois mandatos. Já se perdeu muito tempo, é urgente fazê-lo, urgente definir prioridades, urgente deixar de empurrar com a barriga, ou correr atrás de prejuízos, orgasmos e sonhos de noites mal dormidas.
*Autarca

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