António Gouveia
Que história é esta, a que vivemos e a que assistimos?
A História (pelo menos a que eu estudei no meu tempo de menino) era pródiga a contar-nos as invasões que a península ibérica (e não só) sofreu ao longo dos tempos. E vinham a seguir – tínhamos que papaguear os nomes certinhos dos invasores – celtas, iberos, gregos, cartagineses, romanos, árabes, berberes, vikings, visigodos, gauleses, otomanos, vândalos, suevos, alanos, turcos, sei lá quantos mais. Ao que vinham? Tentar a sua sorte, mais riqueza e melhor fortuna, conquistar território, roubar para matar a fome com certeza. E nós próprios, portugueses, cidadãos de um pequeno país encostado ao mar, não podendo rumar para oriente, atravessámos os mares e fizemos história, épica por certo, muitas descobertas, algumas conquistas onerosas (comemoramos agora 600 anos da conquista de Ceuta, uma desnecessidade, dizem alguns), muitas patifarias, andámos por terras inimagináveis, algumas onde tornaram os descendentes dos descobridores, nós e os nossos filhos (estou a lembrar-me quando fui para Angola “salvar a Pátria”, também dos Emiratos Árabes Unidos onde tenho o filho mais novo, nora e neta há já sete anos, fugindo à crise e arriscando a juventude, local onde acostámos em 1510 e por lá andámos, no estreito de Ormuz, o Irão do outro lado, durante 150 anos. Já qui escrevi em tempos que, em Musgate, capital de Oman, a minha alma de português sobressaltou-se com a imponência da fortaleza que ali construímos, no monte da enseada, à entrada da barra, Tal como meu avô no Brasil e o seu filho, meu pai, em Moçambique, por onde ficaram. Razão tinha (e continua a ter) o grande escritor e padre António Vieira: “para nascer, Portugal, para morrer todo o mundo”.
Todavia espantamo-nos com os novos fluxos migratórios, nada parecidos com as hordas de emigrantes portugueses que demandaram a França, a Alemanha e Luxemburgo na década de 60. Ou as Américas, do norte, do centro e do sul, o Brasil, também a África após descobertas. As pessoas sumiam-se por uns tempos para, mais uma vez, tentar a sua sorte. Mas voltavam. E tornavam a ir. Só por exceção não regressavam, sou dos que sei o quanto isso dói e corrói o íntimo. De meu avô nem tanto, era muito novo, mas a morte de meu pai, era eu espigadote, 15 anos feitos, ele um jovem de 36 anos, não mais me saiu da mente, foram muitos anos a sonhar com ele e, conto-o sem vergonha, não sei se tal acontece a outros, muitas vezes acordava com lágrimas nos olhos, apalpava-os para ver se era verdade o que estava a acontecer, e era. Mas era um chorar de saudade, amargura e tranquilidade ao mesmo tempo, ter podido falar com ele, ouvi-lo (ou a minha consciência, ou alma, não sei) a conformar-me como que a dizer-me que estava bem, não chorasse, pegasse no sono de novo sem mais angústia ou desassossego.
Espantamo-nos com o que acontece nas fronteiras do médio oriente, na Síria, no Iraque, na Líbia, também na Nigéria e em outros países, agora também na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, nas tropelias e crueldade do exército islâmico (IE ou Daesh) que alguns querem ser profecia de Nostradamus, nas suas sextilhas e presságios, quando fala do Anticristo: “Manchado de crimes enormes adultérios,/Grande inimigo de todo o género humano:/Que será pior que avós, tios nem pais,/Em ferro, fogo e água, sanguinário e desumano.”. Mas quantos anticristos já houve ao longo da história? Certo, muito certo, são milhares as pessoas, gente como nós, crianças, jovens e velhos, homens e mulheres que fogem da guerra, da fome e da miséria, gente escorraçada, espoliada e explorada para a viagem de sonho e caminho da Europa, a velha Europa aburguesada e entorpecida, mergulhada numa crise como há muito não se via, uma sociedade como li algures, distraída, urgente, rápida e ansiosa e, já agora – acrescento eu -, nervosa e angustiada.
Assistimos a novos vândalos, sanguinários e criminosos (veja-se o que aconteceu em Palmira e na Síria, nas cidades museus), nunca como agora esta frase de Santo Agostinho nos parece um equívoco ou paradoxo: “O mundo é como um livro, quem não sai de casa só lê uma página”. Mas sair de casa assim? E para quê, se as nossas crianças e jovens já nela se refugiam e dela não saem, espreitando esse mesmo mundo através da internet e da TV, todas as suas misérias e mistérios, as suas guerras e inclemências? E qual o nosso papel, qual o papel dos que lideram a Europa perante o que vai acontecendo? Acobardamo-nos? Baixamos os braços? Será verdade que a História se repete, com adaptações, embora?Redação Gazeta da Beira
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