António Gouveia

2021 – Em abril águas mil? Ou mais do mesmo?

Está no fim 2020, encerra duas décadas de um milénio que, pensávamos, seria o início de uma nova era. Ao contrário, foi o pior desde que sou quando em 44 desembarcavam os aliados na Normandia para libertar da opressão a França e a Europa, a minha geração nunca viveu um pesadelo como este, ao invés, a II guerra estava no fim, a geração dos meus avós e os dois combateram em França na I guerra mundial assistindo, estupefactos e impotentes, à morte de milhões de colegas e, logo a seguir, muitos mais milhões, número superior, com a pneumónica. Apesar de muitas guerras, violentas e esparsas, armas modernas e mortíferas, guerras espalhadas por todo o mundo, desde há 75 anos não assistimos a conflitos intergeracionais e internacionais como estes. Mas assistimos a ataques brutais de Bin Laden às torres gémeas de Manhattan, os USA a Bagdad, em retaliação, de novo na estação de Atocha em Madrid, na primavera e purgatório árabes transformados em inverno e inferno, enfim, esta pandemia e pneumónica é (foi) de grande brutalidade. Sempre assim foi ao longo dos séculos, o apocalipse foi-nos anunciado e repete-se. Mas sempre a esperança espreitou oportunidades e respondeu aos sinais de angústia dos muitos povos que, convenho, não tomam juízo e seguem desarvorados e gananciosos nem sei para onde. E nem sei se nestas provas maléficas se repetem para nos chamar à realidade e meditação de nos interrogarmos e perceber estarmos a desperdiçar energias nesta corrida de maratona que deve, forçosamente, atrasar o ritmo para que possamos realinhar e colocar em ordem as nossas vidas. Ainda assim, acredito que, lá para abril, o nevoeiro começará a levantar para se dissipar, chegaram as vacinas, o Reino Unido e Boris Johnson colocaram a teimosia de lado assinando o acordo Brexit (o menor dos males), vem aí uma bazuca de muito milhões de fundos comunitários, por isso é esta a hora para fazermos o que deve ser feito e, assim sendo, o povo seja menos infeliz, sobretudo os mais desfavorecidos.

Em 2020 soçobraram vidas que se afirmaram, nomes famosos: Eduardo Lourenço, o beirão inspirador da “História do Futuro” neste “labirinto da saudade”; Ennio Morricone, músico prodigioso autor de músicas de fundo em filmes inesquecíveis; Sean Connery, o bom e delicioso espião; Stanley Ho, o empreendedor macaense, Ruben Fonseca, John Le Carré, Ruth Ginsburg, Ribeiro Telles, Maradona, Giscard d’Estaing,  Quino, Vicente Jorge Silva e John Lewis, entre outros. Todos, à sua maneira, desafiaram-nos. Não esqueceremos tão cedo outro nome, não o conhecíamos, Ihor Homeniuk, muito nos emocionou e perturbou a sua morte violenta, cobarde e cruel no aeroporto de Lisboa. Uma estória de brutalidade, um país e povo de brandos costumes a transformar-se num país de terceiro mundo, povo de esbirros fascistas, realidades e interrogações a responder, esta pandemia desalinhou-nos as ideias, andamos tontos, não estamos sozinhos, o mundo todo anda assim, não é desculpa. Em 2021 temos de ter parança nas maluqueiras, o insuspeito economista Daniel Beça já fala “ser necessário um novo 25 de abril”. Desde há alguns anos, um neocorporativismo avassalador, uma administração pública a funcionar cada vez pior, sabíamos que estorvava, agora excede-se. Há sinais de desalento e cansaço e as medidas tardam, porque avulsas e inconsequentes: 35 horas, reposições salariais, falta planeamento e trabalho de fundo para o executar,  o barco navega sem rumo, fracos e indolentes os marinheiros, não éramos assim no séc. XV. Não será a bazuca e milhões dos fundos comunitários a tirar-nos do fundo deste buraco, onde estamos quase isolados, se não lutarmos e diminuirmos o rácio da dívida pública, a apontar aos 150 % do PIB em 2021. Não teremos futuro digno e decente se não soubermos apontar bem a bazuca, afastando os do costume. Espreitam, de tocaia, para atacar os fundos comunitários, mesmo se, como diz o povo, “Em abril, águas mil”. Venha abril, precisamos muito dele e de um Bom Ano.

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