António Gouveia
O Paradoxo - outra figura de estilo
Escrevi sobre a antítese, hoje sobre o paradoxo, figura similar: “une duas ideias, à primeira vista inconciliáveis, para chamar a atenção e salientar melhor esse pensamento”. Nada de equívocos, na eloquência do silêncio – outro paradoxo! -, serão meras figuras de composição literária; mas refletem, meditação profunda, sobre vidas, pessoas, factos, fenómenos sociais e políticos, circunstâncias que se vão repetindo no tempo. Vejamos alguns, por ordem cronológica do acontecimento, não de importância.
1 Diego Maradona, jovem de um bairro pobre de Buenos Aires – outro paradoxo! -, não há “bons ares” em bairros se os jovens passam fome espreitando à porta dos barracos nos becos os luxuosos arranha-céus de fartura e abundância. “No llores por mi, Argentina … mas no te alejes, te necessito” – repetiu-se a linda canção da morte de Evita Perón e, agora, do Dieguito. Sorte e genética bafejaram-no como futebolista excecional, imprevisível no drible, ágil, irrequieto e impetuoso na corrida, imbatível no tu cá tu lá da pelota e do calcio, desporto-rei dos tempos modernos, loucura e paradigma das corridas de bigas e quadrigas, lutas de gladiadores, soldados e centuriões, escravos e cristãos, as mesmas emoções e multidões hoje e no coliseu da antiga Roma, há 2 000 anos. “Panis et circus”, ardis, artes de marketing político para entorpecer vidas humanas, outros tempos, outras circunstâncias. Longe dos Andes, Armando Maradona driblou a pobreza, o tango e a bola. Mas não driblou a cocaína, um paradoxo. A “mão de Deus”, outro paradoxo, Deus não é batoteiro, foi a “mão do Diabo”. Não leu o canto III da Divina Comédia, no Inferno de Dante. Se o tivesse feito, teria percebido o alerta e sentido do letreiro escurecido por cima da porta apelativa: “Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate”. Paradoxo brutal, a vida esgotada na desordem de Maradona: purgatório, paraíso e inferno, no poema de Dante Alighieri, previdente e presciente, o inferno em primeiro lugar.
2 O PCP avançou, com teimosia contra muitos, com o XXI Congresso. No discurso de encerramento Jerónimo de Sousa respondeu à afronta: “Já chega, os direitos democráticos (foram) proibidos durante 48 anos de fascismo”; e ignorou parte da história, 70 anos de estalinismo soviético, horrores nos gulag da Sibéria, outro fascismo. Pensava eu que o congresso escondia uma bomba, a surpresa a justificar a teimosia: a eleição de João Ferreira, um jovem promissor e candidato de charme para ousar a mudança e modernização do discurso bolorento do PCP. Mas não, o simpático Jerónimo não sai, fica sem prazo datado. Curioso, imita Salazar, outro paradoxo. O nosso bem conhecido conterrâneo, instado duas vezes, após a revolução de maio a pôr ordem na república, foi de Coimbra a Lisboa para ficar. Dois anos depois, em 28 maio 1932, traçou, voz num cicio, o destino do Estado Novo: “Mas estas mesmas gravíssimas dificuldades são as que nos forçam a trabalho mais persistente, a apoio mais decidido, a decisão de levar por diante a obra de reorganização social e política de Portugal”. Lendo, algo frustrado no final de 2020, e comparando, tantos os paradoxos, as antíteses e contradições, este neocorporativismo incompetente que nos dirige e esmaga, precisa ser banido, é um arremedo grotesco e cópia mal feita, muito esborratada, do corporativismo de António Salazar, que ele instalou à medida da ditadura. Caramba, vivemos em democracia há 45 anos!
3 Iniciei este ano com tal desencanto e frustração, subiu em flecha e temor em março, sem bater à porta, veio o vírus. António Damásio diz não ter vida própria, é a sua inteligência explícita que o força a ancorar-se noutras vidas para se manter ativo, mutação proveitosa para ele, paradoxal para nós, por vezes mortal. O Natal não será livre e feliz, paradoxo inexplicável, não o primeiro. Mas pode ser santo e afável se virados para dentro, a vida e a fé dos que a têm, são (devem ser) implícitas e explícitas. Confiemos e rezemos: a vacina pode ser a terra prometida que nos tire desta viagem angustiante e cruel. Neste fim de semana de chuva, de frio e clausura releio o Êxodo bíblico, tentando perceber as agruras, alegorias e metáforas da vida. Votos de Bom Natal para a direção e equipa da Gazeta da Beira, leitores e colegas colaboradores.
17/12/2020
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