António Gouveia
Antíteses – “Eppur si muove” e tantas outras
Aprendi, adolescente, num livrinho do jesuíta Abel Guerra, chamado Elementos de Composição Literária: “A antítese aproxima ideias ou termos contrários, para mais os realçar e declarar”. Como modelos desta figura dos grandes recursos do estilo, estes:
Frei Heitor Pinto – “Não há, no mundo, alegria sem sobressalto, não há concórdia sem dissensão, não há descanso sem trabalho, não há riqueza sem míngua, não há gosto sem desgosto”.
Manuel Bernardes – “Este mundo não é pátria nossa, é desterro: não é morada, é estalagem; não é porto, é mar por onde navegamos”.
António Vieira – “Abri aquelas sepulturas e vede qual é ali o senhor e qual o servo; qual é ali o pobre e qual o rico. Distingui-me ali, se podeis, o valente do fraco, o formoso do feio, o rei, coroado de oiro, do escravo de Argel, carregado de ferro…”.
Antíteses, ideias, verdades como punhos. Galileu Galilei (1564-1642) que viveu na época áurea dos descobrimentos, 100 anos depois de Vasco da Gama, teve a ousadia de desmentir uma das teses e teorias do grande Aristóteles (384-322 a.C.) ao afirmar que o Sol não se movia, sim a Terra. Ousadia e heresia que lhe ficaram caras, para trocar a fogueira pela prisão de Siena, teve de abjurar e retratar-se perante o tribunal da Inquisição. No final do julgamento, ainda assim, sussurrou, muito aliviado: “Eppur si muove”. Foram precisos 1 800 anos para ser corrigida uma das muitas teses erradas. As nossas vidas movem-se em constantes teses e antíteses, realidades que nada têm de figuras de estilo. Hoje no Expresso (sábado) leio a entrevista do capelão do Hospital S. João, Pe. José Manuel Teixeira, coordenador uma equipa de 150 pessoas (padres católicos, ministros de 11 confissões religiosas e muitos voluntários), enche-me a alma toda esta coligação de esforços, gente desconhecida, do que pensam ou fazem, nesta realidade dura do que se passa. Diz ele são “milagres o que tantos ali fazem todos os dias”, mais agora neste tempo de turbulência que nos desassossega e preocupa: “O S. João é um mundo, por aqui passam, em média, 25 mil pessoas por dia … corro o hospital todos os dias, tem 16 km de corredores … Os profissionais de saúde são pessoas normais, com família, com alegrais e com problemas, com falta de dinheiro e com coisas que toda a gente tem. E precisa, de aconchego”. Bonito, todos a correr, uma lufa lufa atrás das antíteses das suas vidas, nem fazemos ideia desses mundos. E muito se passa por todo o lado, a Terra continua a mover-se sem parar, todos os dias, todas as horas, minutos, segundos numa velocidade incrível, estamos a precisar mais do que nunca de estabilidade emocional, parece que o mundo está a ruir, tantas as incongruências.
Curioso, pensando melhor, é neste tempo de tormenta que mais precisamos que a política funcione melhor e não em desalinho. Se na declaração de emergência PS e PSD se uniram no Parlamento para a aprovar, por que não no resto, coligação onde todos os partidos pudessem ajudar a decidir bem, na síntese do que é melhor para todos? É verdade, cheira a fim de ciclo político, há muito desalento, desatino e preocupação desmedida, não é só na saúde ou segurança social, coincidência infeliz, exatamente os ministérios que mudaram de titulares. A hotelaria e restauração passam por momentos muito graves, toda a economia em geral, problema agravado pela também teimosia dos húngaros e polacos a travar a bazuca dos fundos que faria a diferença, Portugal no início do ano assumirá a presidência da UE. Menos teimosia precisa-se, menos teses e antíteses, ficam só as de estilo, precisamos muito de uma boa síntese para os problemas para que mundo e vidas continuem a mover-se o melhor possível.
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