António Gouveia
Despedidas: um discurso de esperança, um grito de guerra

Na última edição, a GB prestou homenagem de forma brilhante e exemplar a Maria do Carmo Bica, sua diretora, textos de muitos amigos prestando-lhe justo e merecido tributo. A foto de capa que pude observar uma e mais vezes da Carmito, que o editor mandou imprimir e cunhou na belíssima expressão “um sorriso de liberdade”, tocou-me fundo. Também o texto da sua autoria, prodigioso, então publicado no livro “As vozes que se entrecruzam”, da UMAR, “As múltiplas discriminações das mulheres: na agricultura e no meio rural”. Se uma imagem vale por mil palavras, este texto vale como expressão do sentir da Eng.ª Maria do Carmo Bica, espelha o seu íntimo, a sua personalidade, os seus anseios, a sua forma de estar como mulher de causas, uma e outro fazem a síntese das qualidades e virtudes, de uma lutadora pela região de Lafões e suas gentes, a quem muito ficamos a dever. Fazia parte das elites, as (os) melhores de nós. Um estudo recente, promovido por universidade belga e colaboração da FEP, ressuscita as elites, fala das políticas e empresariais (estas melhores que aquelas) do que representam para os países e regiões da Europa. Carmo Bica figurava em ambas, fazia a síntese do mundo político com o empresarial, coerência, dedicação, disponibilidade, ação. Mas era discreta, o sorriso, meio envergonhado, mas resplandecente. Eram diferentes as nossas “fixações ideológicas”, expressão de Vicente Jorge Silva, o jornalista também notável, irreverente, da “geração rasca”, profundo na análise social e política, também partiu agora. Lutávamos em diferentes barricadas, mas, no essencial, mais importante e substantivo, empunhávamos as mesmas armas, o mesmo inimigo, jamais censurou ou anotou os meus textos, nunca me pediu contenção e menos crispação nos meus escritos por vezes irreverentes, sabia que nunca me vergava ou punha de cócoras perante poderes abusivos, oportunistas e corruptos. Permanecerá em mim a visão etérea de uma grande senhora, a sua bondade e abnegação para com as nossas gentes, mais, as desfavorecidas e esquecidas lá nas faldas frias e agrestes do Caramulo e da Penoita onde ambos temos raízes ancestrais. Fui percebendo o seu percurso, através do seu tio e meu querido amigo, António Bica, a quem deixei um abraço comovido no funeral, também a seu marido, cheguei tarde, mas fui a Paços de Vilharigues, tinha de ir. Lafões fica mais pobre, o estudo que referi diz faltarem elites no interior esquecido, uma pena, a Maria do Carmo não deveria ter partido, vai fazer-nos falta, tanto se dedicou às questões da agricultura e da floresta, a projetos comunitários, dotá-la de equipas de bombeiros sapadores para a sua limpeza e o ordenamento, com o presidente Rui Ladeira, floresta tão esquecida pelo poder central, continua a ser pasto de fogos, chamas, fumos negros e espessos como os que, de novo em Oliveira, sufocaram e sacrificaram o ainda jovem Pedro Ferreira, outro combatente, deixa mulher, filho pequeno e demais família, envolvo todos e os seus amigos, também os BVOF num abraço de sentido pesar.
Termino – mais outra homenagem à Carmito, mulher, cidadã, senhora da política -, para referir o notável discurso da presidente da União, a alemã Ursula Von der Leyen, “Construir o mundo em que queremos viver: uma união vital num mundo fragilizado”, fez-me lembrar Jacques Delors, discurso que nos transmite muita confiança, esperança, motivação e alívio, já não era sem tempo, a Europa adormeceu perante a depressão que nos cerca, padecemos os males da pandemia, em crescendo. Também os da economia, em queda. Pandemia e economia é uma mistura tão explosiva e mortífera como a do sulfato de amónio destruidor do porto de Beirute. Bill Gates, mago e visionário do futuro, diz-nos agora que 25 semanas de Covid-19 são 25 anos de regresso ao passado, a 1995, portanto. Será então o caminho que temos de refazer, retirando pedras e pedregulhos. E caminhar, agora mais devagar, sem pressas e sem ansiedade, mas sempre em frente, tempo de ação e saber que Europa queremos, cantando aquele grito de guerra do poeta e político francês Paul Déroulède: En avant, / Tant pis pour qui tombe, / La mort n’est rien, vive la tombe, / Quand le Pays en sort vivant ! / «En avant !».
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