António Gouveia
O parlamento e a democracia que temos
António Costa e Silva, o autor do programa “Visão estratégica para o Plano de Recuperação Económica para para Portugal 2020”, escolhido pessoalmente pelo PM António Costa – curiosa coincidência, o mesmo nome e amizade, uma providência cautelar, é, sem nenhuma ironia, muito bom termos amigos fiáveis, inteligentes e leais que possam dar uma ajuda no meio da turbulência em que somos envolvidos -, deu agora uma entrevista ao Expresso que considero excelente na análise que faz dos nossos problemas, defeitos e consumições, onde fala da “existência de muitos egos”, que “vivermos num país pequeno, mas muito complicado”, que somos “um país com uma grande tradição de planos na gaveta”, e outras. E, à pergunta final dos jornalistas para fechar a entrevista, “se pudesse escolher apenas uma prioridade (do programa), qual escolheria”, responde: “Provavelmente, a qualificação da população”. Chave d’ouro, sem dúvida. Do muito que já se conhece do trabalho entregue ao PM e agora sintetiza nesta entrevista, oxalá consiga apoio abrangente das forças políticas, o país precisa muito, esta democracia que temos funciona mal, desilude-nos muito, é um falhanço. Desde logo, porque a AR vai de férias em exaltação, os partidos dividiram-se numa decisão maniqueista, os pequenos (são muitos, agora) contra os grandes; e, mesmo nestes (mais no PSD, a direção não concedeu liberdade de voto e bem, mas também no PS, com liberdade de opção quanto à temporalidade e redução dos debates com o PM, questão, ouço para aí dizer, fulcral no funcionamento da democracia, decisão também contestada pela comunicação social, compreensível, a concorrência é feroz e nas redes sociais, a sobrevivência dos jornalistas está difícil, são mal remunerados, a comunicação social não espicaça o engenho e a arte é isso patrões (são poucos), mais ou menos falidos como no futebol, só se vão safando com programas bacocos tipo Big Brother, quem quer casar com o agricultor ou com a estridente Cristina Ferreira (a TVI quis, o dote, cinco milhões, paga o Zé Povinho) e, como tal, a ausência de debates na AR significa menos matéria a tratar, menos fait divers e tricas. Enfim, uma chatice nesta política sem risco, diria Sá Carneiro.
Outra pergunta deve ser feita: que democracia temos? Funciona e é útil? O povo revê-se nela? É-nos muito próxima, como na Inglaterra, onde os eleitores conhecem os seus deputados, sempre de portas abertas para ouvir sugestões e reclamações, também os maiores problemas da população do bairro ou da terra, tardios na resolução? As nossas vidas estão melhor, já ligamos mais à política, um dever de cidadania, ou passa-nos ao lado, tão desiludidos e sem esperança e nem queremos ouvir falar dela? Não e não, desde há muito tem sido mais do mesmo, tudo repetido, copy paste, tão repetido e eternizado que até o “honorevole” presidente da Comissão de Ética (!) e Transparência (!) por ali anda desde 1983, imaginem, uma vergonha diria Sá Carneiro e repito, a política sem ética, 47 anos, mandatos corridos como no tempo de Salazar, que não chegou a tanto. É verdade que não nos deixava falar, muito menos de política, nada percebíamos dessa ciência rara, mas não nos enganava nem atirava areia para os olhos, ele é que mandava, nos dizia “se soubéssemos o que custava mandar, obedeceríamos toda a vida”, ponto final. Agora, com esta democracia, ao que ouvimos, mandar não custa e nem temos de obedecer, a AR trata das nossas vidas. Se assim é, para quê debates com a pandemia a correr atrás de nós quando há tanto para fazer? A ministra da saúde governa os hospitais e trata da nossa saúde? Não parece, também não tem tempo, os dias na televisão a contar vivos, mortos, recuperados e infetados, como pode ter? Que venha então o Plano de Recuperação Económica, e, já agora, da Política, estes tempos não estão fáceis; chegue o dinheiro da EU e seja bem aplicado, a corrupção já diminuiu, os tribunais estão ativos, boa notícia, disse o nosso PR, oxalá o dinheiro possa recuperar, efetiva e objetivamente, a economia, num caos, irá ficar pior ainda. E, já agora, que esta democracia balofa e falaciosa se modernize e enxote quem está a mais e mude de caras, caras que, de vez, possamos também escolher ou vetar, já sabemos ler, escrever e contar.
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