António Gouveia

Nada será como dantes!

No último número a diretora da GB, Carmo Bica, abordou, no seu editorial, estes tempos que passam com a sagacidade e urgência que o momento recomenda e que a GB enquadrou com mais entrevistas e propostas, daqui o meu aplauso. Observador atento dos problemas das pessoas, qualidade determinada pelo lugar que ocupo enquanto autarca, não vejo grandes soluções para este futuro mais próximo. Esta pandemia, como qualquer catástrofe, se é (está a ser) uma ameaça, tem oportunidades que não devemos desperdiçar. Desde logo, este tempo de quarentena e intervalo na pressa do costume, sobra tempo para musgar (gosto do termo) e pensar na vida, estou inteiramente de acordo, Portugal deve virar-se para a produção de produtos de qualidade, o gourmet, a qualidade biológica e a raridade são bem pagas e o mercado absorve com facilidade, os ricos não desaparecem, haja criatividade e inovação por parte da cadeia alimentar, num abraço entre produtores e comerciantes, feiras e feirantes com  outro sentido e paradigma, menos rouparia e mais artesanato, bons produtos hortícolas, frutícolas e artesanais, pescado e marisco de qualidade, enfim, uma oferta excelente de frescos, produtos d’época, todos gostamos de comprar, oportunidade que produtores e suas associações, comerciantes e feirantes, não devem desperdiçar.

Quem me tem lido, sabe que sofro de (alguma) deformação profissional, acontece a muitos, continuo   a   observar o que se passa com a economia e com as finanças  (as nossas, do país, da Europa e mundo em geral e global, tudo bem interligado. Não acredito em teorias de conspiração, o mundo é este, sabemos quem manda: USA, China e Rússia, são (têm sido) os donos disto tudo, congregam a maior multidão de sempre, mais metade 7,5 mil milhões que somos, com os países satélites (aliados, se quiserem), agora foi o UK que nos trocou, nada que espante, tem sido a nação mais oportunista da história, o Boris Johnson teve a sorte de o Luís português  lhe ter salvo a vida, será que ficou com remorsos? Como aqui venho escrevendo há meses, antecipei esta crise da economia, era previsível, gostamos de investir muito em mais do mesmo, agora era o turismo a dar e a construir hotéis, no passado recente as agências bancárias, sei como foi, abri várias no norte e centro do país, foram também as farmácias, negócios da China, ambos na década de 90. Já não são, tudo e todos na penúria.

O que eu não consegui antecipar – estou desiludido, a minha genética dotou-me de lógica premonitória e prospetiva -, foi que a economia iria claudicar alavancada por uma pandemia avassaladora. Só em dois meses, a autarquia a que presido, aqui no Porto, concedeu mais apoios que nos primeiros anos deste mandato (no primeiro, não havia fundos, tive de poupar e acertar as contas, 2013 foi de austeridade e herança pesada, os meus colegas sabem do que falo, alguns também sofreram. António Costa diz que a austeridade não é com ele; esquece-se, fala o político otimista irritante, todos percebemos, também ele, toda a Europa está em dificuldades, mais ainda, Portugal, este rombo vai ser pior do que 1983, quando o saudoso e crismado bispo vermelho Manuel Martins invetivou Mário Soares a resolver a fome que grassava em Setúbal e na cintura industrial de Lisboa. Agora, a repetição, de forma mais brutal, tal como então, muitas dificuldades, desemprego, será bom anteciparmos o choque e a nova crise, mãos à obra com hortas comunitárias, ou seja o que mais for. O jovem que quis ser missionário e virou bancário, agora autarca, em renovada e nobre missão, em revisão de vida e preparação da meta final, não quer ser profeta da desgraça: cuidemo-nos todos, portanto, tão importante é protegermo-nos do vírus – está para durar! – como dos tempos que virão, tempos de vésperas, já aqui o escrevi e acertei, nestes problemas da economia, o vírus Covid-19 e o petróleo é toda uma mistura explosiva a ter em conta. Que Deus nos guarde! Mesmo que tenhamos de responder como o cardeal Gianfranco Ravasi na entrevista que deu a António Marujo (vale a pena ler, saí na revista do Expresso de 17 abril: “O problema não é se Deus existe. É saber qual Deus”.

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