António Gouveia
É urgente o amor, em tempos de guerra

Quando nasci, madrugada de estio, em 44, as forças aliadas desembarcavam na Normandia, pés em terra firme e de esperança, acossadas pelas forças do eixo e germânicas, a Alemanha, fénix de novo renascida e impiedosa, disciplinada, portentosa e inclemente, queria conquistar a Europa, nas praias ficaram estendidos milhares de mortos, num combate em nome da liberdade dos povos contra todos fascismos. Não há qualquer tipo de ideologia (ideais) que justifique, só por si, atentados às liberdades humanas, a Humanidade que somos. Ao desfolhar as páginas da História, pasmo, incrédulo, com tanto “ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas”(1) em nome de ideologias económicas, políticas e religiosas, ismos que nos venderam e ainda resistem por aí. Recuperando a memória desses tempos, andava eu na escola primária, começaram a chegar a Oliveira de Frades e outras vilas e cidades portuguesas, dádivas da América, a heroína da guerra, destinadas à Cáritas para distribuir pelos mais pobres, quase todos, comparando o que temos hoje, éramos mesmo muito pobres. Ainda assim, “felizes com o que cá temos”, cantávamos no hino de Lafões, “como as terras daqui oh! Não há nenhuma!”. Lembro as fatias de queijo amarelo, o leite em pó, os legumes que minha saudosa mãe, na cantina escolar, retirava das latas em folha de flandres e que eu e o meu irmão ajudávamos a abrir para ela distribuir por alunos e famílias. Pois bem, eram outros tempos, já nada é do que não foi ou foi, cidades destroçadas por bombardeamentos Europa fora, muita fome e pobreza, muita miséria e crueldade, muitos milhões de mortos.
A guerra do coronavírus que agora nos sufoca, nada tem a ver com essa, é global e total, um danado e perigoso vírus contra o mundo todo. Felizmente, perde força, menos fogosa e demolidora, acredito e confio no seu declínio, o pesadelo irá passar depressa. Mas nada será como dantes, uma era terminou e outra começou e a pergunta, ouço por aí. Concordo, o que virá a seguir, se a economia quase paralisou e só vejo na VCI camiões de abastecimento de produtos alimentares e bens de primeira e básica necessidade? Se o turismo, a galinha dos ovos d’oiro que nos sustentava, voou para sua casa? Se nós, consumidores, empresários e trabalhadores andamos todos com o credo na boca? Sim, nada será como dantes, virá um período de acalmia. Como em outras crises, as crises são sempre financeiras, a moeda papel, os fundos e os ativos são o resultado de um comércio feito louco e movimenta uma economia estupidificada. É agora livre, global e sem travão, está poderosa, mas está frágil e continua a seduzir, envolve particulares, famílias, empresas, instituições e governos, sem percebermos o porquê de tal sedução, encantamo-nos, a sua capacidade de inovação é fabulosa.
Ainda assim acredito termos aprendido a lição, no condão de nos ter posto de castigo em casa, a musgar, com tempo de sobra para pensar e deitar contas às nossas vidas, perceber a imensa cadeia de solidariedade que uniu mãos, curiosamente, quando todos estávamos impedidos fisicamente de nos tocarmos e apertarmos. Paradoxo único e virtuoso, desde o pessoal da saúde, mulheres e homens que sabem da vida como poucos, ao mais pequeno agente funerário que, como poucos, também sabe como ela acaba, neste dia de quinta-feira santa e ceia de despedida do profeta Jesus, o Deus em quem acredito, escrevo e vejo, do meu terraço, a fila enorme de camiões, ansiosa por ir ao trabalho e proteger-nos, apita, incomodada. E penso na narrativa evangélica do rico e do pobre Lázaro, notável chamada de atenção aos mais distraídos, pobres lázaros que somos, sobreviventes neste vale de lágrimas e tempos de Pessoa e desassossego. O tempo não volta pra trás, como pedia, cantando, há muitos anos, o António Mourão. Mas, como ele, devemos deixar de lado esperanças vãs, a verdadeira esperança é a da solidariedade, só assim o sol continuará a nascer todas as manhãs, só assim a ressurreição chegará e fará sentido nesta Páscoa de sofrimento, penhor de um futuro promissor.
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(1) É urgente o Amor – poema de Eugénio de Andrade
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