António Gouveia

Natal, conto (e contas) do Triunvirato impensável e Orçamento possível

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Sempre as nossas vidas marcaram a diferença no calendário: romano, justiniano e  gregoriano. A maior foi no calendário Justiniano, em homenagem a Júlio César, cujos feitos Suetónio descreve na “Vida dos Doze Césares” e o Natal fez todo o sentido na que foi a premonição deste primeiro César e imperador, Caio Júlio, que foi tudo na vida política da História de Roma: cônsul (cinco vezes), ditador, tribuno da plebe, pretor, censor, principex senatus, pontifex maximus, governador da Hispânia Narbonense (sul Portugal/Espanha) e, qual herói, pai da pátria, no altar da qual viria a ser sacrificado a golpes de punhais assassinos nos idos de março de 44, alea jacta est, seria a travessia de outro Rubicão. Em 46, dois anos antes, mandara redenominar o calendário romano para ser reiniciado em 45, o ano da confusão, no acerto dos meses de acordo com o ano lunar a começar em janeiro e não março, uma nova era, portanto, uma premonição, repito, história que já não viveu, deixou-a em herança a Octaviano  (63 a.C-14 d.C.), sobrinho neto por adoção, a segunda figura romana deste triunvirato que a história não menciona, no melhor e mais longo consulado do império romano, e nela/nele a honra suprema de poder contar e escrever o nascimento do terceiro triúnviro, o judeu nazareno Jesus Cristo, outro político, provocador e revolucionário à sua maneira simples, nada autoritário, o seu reino não era deste mundo, a maior figura de sempre da História, pregador da tolerância e do compromisso a favor dos mais pobres e desfavorecidos, também ele torturado e assassinado brutalmente, condenado à pena de morte na cruz, no ano 29 a.C. (antes de Cristo), suprema dedicação, coincidência, a Júlio César o ficamos a dever, já Tibério era imperador. Este triunvirato impensável decorre desta premonição de mudança do calendário, viria a mudar a história, a diferença entre o antes e o depois de Cristo, uma nova era, equilíbrio e mudança de paradigma na sociedade e civilização romana, o cristianismo colar-se-lhe-ia para sempre, a maior de sempre, dela somos herdeiros, império cuja geografia das nações, em grande parte e ao tempo se iguala à da Europa Unida de hoje mas já em desatinos comerciais com o Brexit.

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Certo é que, a partir desse Natal, o salto na sociedade foi imenso, também os problemas e dores da evolução, apesar disso, nunca, como agora, temos tanto ao nosso dispor, uma fartura que gera procura, que alimenta a economia, também a fadiga e desilusão, compras sem limite de tolerância, plafond’s esgotados no multibanco e cartão crédito, ruturas de armazenamento. Até o IPhone11 esgotou o stock, o minúsculo gadget 160 gr. de peso e custa 1.000€, desmedida ambição, quando me lembro que no meu natal de criança poderia contar, por junto, no concelho de Oliveira de Frades, uma dúzia de telefones fixos. Somos confrontados hoje, diz o Papa Francisco, ele que é  observador atento e arguto da nossa sociedade, com um “novo vírus da fé”, o consumismo, não percebemos, muito distraídos, quão ardilosa e falaciosa é a arte do marketing para este consumismo que trepida corações, dispersa mentes e gera contradições, estamos ricos, gastámos nesta época mais 15% do que em 2018.

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Será assim? Na discussão do Orçamento para 2020, não vemos tal riqueza ali espelhada, bem ao contrário, a maior carga fiscal de sempre, acima daqueloutra que tanto invetivámos a Passos Coelho aquando da troika que nos visitou, cartão amarelo na mão, e nos acudiu com 78 mil milhões de euros que ainda não liquidámos. Também endividados até às orelhas, Centeno arrisca um superavit, forma encapotada de cativar 500 milhões que tanta falta fazem em investimentos prioritários e reprodutivos. Aparentamos ter, mas não temos, e continuamos a não ter juízo. Não é só distração, é egoísmo puro, vale-nos este tempo de Natal, a família que chega, também do estrangeiro onde somos muitos, filhos e netas, a família, essa nunca esgota o stock do amor e dos braços abertos. É mais um Natal de encanto e encontro mágicos, os avós (corrijo, a avó), preparamos-lhes coisas boas, estragamo-los com beijos nesta noite linda, a mesa enfeitada à luz das velas, bacalhau, peru, doces e prendas no pinheiro, a sedução dos mais pequenos. Noite de Natal que nos comove na sua paz e recordações, a melancolia do reviver tempos de criança, menos prendas, mas a mesma alegria e amor, a mesma candura e inocência que revejo nos rostos, a mesma ilusão e trepidação silenciosa, uma espécie de cessar fogo no combate do dia a dia. Bom Natal e Bom Ano para todos.

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