António Gouveia
O Sol não se põe nem se vai embora, nós é que nos afastamos dele
Tempo de férias, tempo bastante e importante para arrumar as prateleiras do pensamento que temos alojado no cérebro, um computador com muitos milhões de neurónios e sinapses, fonte de inteligência natural, mais lento no processamento, não artificial, não pensa nem reage como o BOB, o primeiro supercomputador chegado ao nosso país que há dias foi instalado em Riba de Ave, doado por uma universidade americana do Texas, em Austin, capaz, imaginem, de processar 175 PFlops (175.000 biliões) de cálculos por segundo, este sim, nesta tarefa matemática não chegamos a tanto. Chegamos, sim, onde ele não chega. É de números que quero falar, aconselhamento antes de férias, bancário que fui durante muitos anos e milhares de contactos e visitas a clientes, particulares, pequenos e médios comerciantes e empresários, grandes empresas, enfim pessoas ou entidades de labor e luta por maior riqueza, muitas estórias para contar, gloriosas umas, de choque e tristeza brutal outras, pobretanas, uma mão a trás e outra à frente, sempre a segurar as calças, não era o pesos dos bolsos, estavam secos que ficaram ricos depois, muita labuta e trabalho, mérito próprio, a maioria, poucos os que a sorte bafejou. E o inverso, fortunas herdadas de topo e gabarito, reduziram à miséria muitos ricos que conheci. Nisto não pensamos, existe a ideia ilusória, os ricos foram sempre ricos e os pobres sempre pobres, naquela máxima do evangelho desse Homem singular a quem rezamos (eu rezo), Jesus Cristo: “Pobres sempre os tereis convosco” 1. Nem sei porquê, Ele não disse o mesmo dos ricos, mas eu percebo, falou deles noutras ocasiões, não precisava perder tempo, sabia-os surdos a recomendações. Como hoje, aliás, o dinheiro é uma perdição, vejam o que vai por aí de corrupção, sem generalizar, nenhuma classe se safa: políticos, empresários, banqueiros, altos e médios quadros, médicos, magistrados, etc. E todos se safam, a Justiça dá conta de 6% dos processos que lhes caem nas mãos, a prova tipo (perdão, Ivo) Rosa é difícil de aceitar, o enriquecimento ilícito também não é penalizado, não dá jeito e a impunidade assegurada.
Aos endividados em empréstimos à habitação (são muitos) nestes tempos de bonança, de sol na eira e chuva no naval, ou como respondia o Dr. Pangloss, “vivemos no melhor dos mundos”2? Não vivemos, é mais uma fake news dos políticos, um dia destes com a subida das taxas, iremos perceber que não ter diluído a benesse de €100/mês (em empréstimos de €200 mil a 30 anos), arrecadando-a na poupança ou abate da dívida, foi uma tolice. E o Estado, mais atento (ou assim julgo) sabe que basta a subida de um ponto na Euribor para os juros dispararem de novo mais 2.000 milhões batendo nos 9/10 mil milhões. O conselho fica dado, o país continua doente apesar do que por aí se diz, se escreve, se ouve e se vê, é tudo treta; não fora o pulso de ferro do ministro Centeno, já andávamos outra vez a pedir socorro como em 2011. Já sei, é graças a ele e AC, o seu grande apoio, que estamos assim, déficit controlado, mas não chega, falta do lado da despesa. Cito o diretor do Expresso, João Vieira Pereira: “A nossa economia é pequena, pouco competitiva, a sociedade é muitíssimo desigual, a administração pública serve-se a si própria em vez de ao cidadão, a Justiça é ineficiente, a educação insuficiente, os bons serviços de saúde estão ao alcance de alguns, pela cunha ou pela carteira”. Boas férias, toca a arrepiar caminho, tratar do físico e apanhar Sol. Ah! Ele nem se põe nem vai embora, é outra ilusão, nunca nos abandona, apenas se esconde; nós é que nos afastamos dele, vivemos na Terra e ela, como disse Galileu, “Eppur si muove”, anda à roda e nem o sentimos. Talvez por isso somos ficamos, andamos tontos com tanta volta e rotação! o que poderemos fazer?
1 João 12:8
2 Cândido (Voltaire)
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