António Gouveia
10 de junho: da Odisseia e Epopeia de ontem à Tragédia e Comédia de hoje!
“E se as produções estacionam e os investimentos caem […], como poderia ser de outro modo, quando nenhuma reforma se introduziu no sector agrário, a não ser a pior de todas, […] que foi o êxodo rural para as cidades maiores e para o estrangeiro […]?” – F. P. Moura, ‘Por onde vai a economia portuguesa’, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1969, pp. 17-31 e 98-99.
Curiosa coincidência, fui hoje ver a prova de História que saiu ontem para o 12.º ano (a minha neta mais velha está lá perto, quero perceber para a ajudar) e nela li o texto acima, escrito no ano em que, bancário recente, me transferi do de Lisboa para Viseu, ano em que acordei estremunhado na Alexandre Herculano, são e salvo, aliviado por já não morar no bairro alto, em Lisboa onde os estragos foram mínimos, o 1 novembro 1755 estará para sempre, julgo eu, na memória de quem lá vive. Pois bem, 50 anos depois deste texto ter sido escrito, mantém-se atual, o “êxodo rural para as cidades maiores e para o estrangeiro …” (mas não só rural, é nacional) continua como em 69, lembro-me bem. Este setor já nada tem a ver com o que o Estado Novo manteve num torpor anos a fio, há muito desapareceu do interior que hoje está mais despovoado e, sobretudo, despojado e desamparado de políticas sem visão de futuro. Mas continuam as decisões infelizes e estúpidas, governantes que não pensam, amorfos, sem capacidade de previsão. Por exemplo: há um ano, se tanto, o atual Governo, acossado por sindicatos e partidos da esquerda radical, quis dar benesses ao funcionalismo público, reajustou salários (e bem) e, não contente com a medida, diminuiu-lhes o horário laboral de 40 para 35 horas (o setor privado, portugueses de segunda, não foi contemplado). Resultado: é agora urgente reforçar o quadro com mais 45.000 trabalhadores, mesmo depois da entrada de 31.000 neste mandato. Pergunto: não sabiam que o SNS (e outros) se chamuscasse no chamado burnout, no trabalho aumentado dos profissionais da saúde? Que a ministra da saúde não tem obstetras em carteira para acorrer às maternidades, para não dizer que não há é mesmo dinheiro como tem faltado noutras áreas da saúde e as cativações o provam?
Mais ainda: ninguém previu, desde pelo menos 2011, que a pulverização das insolvências de empresas do setor do imobiliário e construção civil (mas não só), onde tínhamos muitos bons trabalhadores, integrando equipas multidisciplinares, capazes e bem formados, muito experientes, saíssem para o estrangeiro durante a derrocada, onde foram recebidos de braços abertos, e é hoje e agora um ‘ai jesus, aqui d’el-rei’, não temos mão de obra disponível no setor do imobiliário e outros setores em crescendo, como o do turismo. E os ciclos económicos, fenómeno inédito ou sempre existiram, hoje cada vez mais urgentes e vorazes? Não fazendo parte (agora e desde há uns tempos) de nenhum gabinete de planeamento, de equipas de novos projetos, de apoio e financiamento a empresas, na que foi a minha profissão durante anos, mas curiosos e atento à evolução do mercado e dos tempos, abordei e alertei, aqui mesmo, esta mesma mais que previsível possibilidade há já uns anos. Estes não são problemas dos ministérios da presidência, do trabalho, do IEFP, da economia, cujos gabinetes políticos, empresarias e setoriais não cuidaram de prevenir? E que dizer desse maneirinho e notável (?) quadro de topo da Administração Pública – para não falar de outros, poucos, pagos a peso de ouro! -, Vítor Constâncio, governador do BdP, vice-presidente em prateleira dourada, no BCE, por mérito e pagamento de favores, que referiu na CPI da AR nada ter visto para se poder opor à captura de posição qualificada no BCP de Joe Berardo, ao tempo senhor todo poderoso e “grande poder de metralha” (Filipe Pinhal dixit e bem); nada saber sobre financiamentos para entrar no capital do mesmo banco, mil milhões (‘billion’) repartidos pela CGD, BES e BCP onde tinha ocupado o cargo de presidente da comissão de remunerações apesar de ser um forte e endividado acionista cujas contas da Fundação a que estava ligado eram desconhecidas; e, por isso, ter nomeado administrador para o BCP o seu consultor e advogado; não ter estado na reunião (afinal tinha estado), mas se limitara a cumprir a lei; que a supervisão não era tarefa sua, um sem número de desculpas incoerentes? Precisamos de reguladores, supervisores e fiscalizadores assim, para quê? António Barreto, em crónica recente no Público, escreve o seguinte e cito: “Uns querem apoderar-se da fortuna e da propriedade para consolidar o seu poder político. Outros querem este último para ganhar dinheiro e aumentar a propriedade. Parece simples e rude, mas a verdade é que a luta política é muitas vezes simples e rude”. Subscrevo, tem sido isto.
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