António Gouveia
O “ConSelho” de Carlos Matias e o nosso (meu e dele) Concelho de Lafões
Carlos Matias, sampedrense ilustre, antigo político e cidadão devotado às causas do turismo, veio falar-nos aqui, no último número, da sua proposta (e ideia) de restauração do antigo concelho de Lafões. Parecerá ideia desabrida e peregrina para quem nasceu em S. Pedro do Sul, mas é um ato de coragem e lucidez. Na verdade, li na Gazeta o resultado da elevação daquela vila lafonense a cidade e percebi que a promoção teve consequências: enquanto em Vouzela e em Oliveira é tudo para fechar, escolas, centros de saúde, tribunais e repartições de finanças, S. Pedro resiste à tolice apesar de distar 15 km de Viseu, desafiando a angústia e a revolta das congéneres vizinhas mais afastadas da capital Viseu e de cabo não viram sargento.
Mas eu sei que a ideia de Carlos Matias não é peregrina nem desabrida, tal como não foi a ideia de se agregarem mais de 1.000 freguesias. Percebo-o hoje melhor porque, destino fatal e não premeditado, estou à frente de uma delas aqui no Porto, a terceira maior da cidade, quase a soma de todos os que moram nos três concelhos de Lafões. Mas, se um sampedrense e um oliveirense, porventura também um vouzelense, mais avisados, entendem que a ideia da agregação (ou fusão) não é peregrina, bem ao contrário, se se perguntar aos autarcas e meus colegas destes três concelhos, cada um por si, travando-se de razões, questões e confusões, dirá que a agregação é uma tolice, não serve o povo e destrói emprego. E percebe-se, este é um país corporativista e “tachista”, são muitos os lugares e as mordomias a repartir pelo Portugal conhecido e desconhecido. Basta dizer-vos, por exemplo, ter em marcha um plano para encerrar o pré-escolar dependente da junta que governo. Porquê? Apenas por ter constatado que, numa distância de 300 metros, existem três equipamentos ao mesmo: o jardim-de-infância de que vos falo (duas educadoras e quatro auxiliares de educação para 28 crianças, vejam lá a abundância de recursos e tantas escolas sem pessoal), o da escola básica do bairro e o de uma IPSS, cerca de 120 crianças repartidas por três edifícios, três instituições financiadas pelo Estado que somos e pagamos, o mesmo é dizer pela Junta, pelo Ministério da Educação e Ciência e pela Segurança Social. E este mau exemplo replica-se por outras localidades como se sabe. Depois dizem que não há dinheiro para mandar cantar um cego. Pudera! …
Vai haver, um dia destes, fusões de municípios? Acredito que sim, Portugal não tem viabilidade com esta estrutura administrativa, é a sua sustentabilidade financeira que está em causa. E o concelho de Lafões seria uma boa aposta e alternativa, com uma governação mais fiável e com melhores resultados? Não tenho dúvidas, bastaria que os eleitos de cada um dos concelhos (ou da comunidade intermunicipal para começar) pudessem decidir onde ficaria cada um dos equipamentos mais importantes e indispensáveis: hospital médio, tribunal de primeira instância, esquadra ou quartel central das forças de segurança (polícia e bombeiros), escola de ensino superior médio, “lojas do cidadão” suficientes nas vilas e maiores agregados.
Uma utopia? Talvez que S. Pedro do Sul não alinhe na onda, quem está bem instalado na vida gosta pouco de solidariedade. Mas, se a pouco notável cidade assim pensa, que se deixe estar, pensem no assunto as vilas de Vouzela e Oliveira, a primeira virada para o turismo rural, a segunda para a indústria, mesmo que esta não esteja nos seus melhores dias. Um dia destes teremos aí a albufeira que liga Ribeiradio a Sejães, obra de raridade não despicienda, se vingar bom senso e capacidade prospetiva (coisa rara nos políticos), esta união de esforços poderá ser bem-sucedida, com ganhos e economias de escala a beneficiarem o povo. Utopia ou não, alguns dirão que os velhos – eu e o Carlos Matias – somos ingénuos ou estamos malucos. Mas os homens que pensarem nesta maluquice ficarão na história de Lafões, acreditem.Redação Gazeta da Beira
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