António Gouveia

“Toda a elite financeira e política sabia do regabofe que se passava na CGD”

A ex-Deputada Joana Amaral Dias confessou há dias: “toda a elite financeira e política sabia do regabofe que se passava na CGD”. É verdade, mas esqueceu a terceira elite, a judicial. Como sempre acontece na Administração Pública, a justiça, dela parte importante e soberana, sempre confia no decurso do prazo (uma deformação profissional e, como todas, inútil e prejudicial) na expetativa de alguém denunciar crimes como o da CGD, ela sabe que os ‘crimes públicos’ não carecem de queixa ou denúncia, o Ministério Público está obrigado a atuar. Mas não atua, sei bem, país de brandos costumes e cobardia, falta coragem e ousadia para afrontar os criminosos poderosos, faz parte da herança cultural salazarista quando o respeitinho perante os detentores do poder era muito bonito, nada de os desafiar ou interpelar. Com uma diferença: ao tempo era apenas uma questão de poder pelo poder, o plebeu perante o suserano, não de corrupção do poder pelo dinheiro (porque era pouco). Conhecemos os nomes destes passarões, os nomes andam nas páginas dos jornais, televisão e redes sociais, eles repetem-se, passearam-se pelo BPN, BES, CGD e BCP, nas guerras de poder, sucessão e corrupção. Em declaração de interesses, assumo ter sido bancário anos a fio, uma vida a conceder e a recusar crédito país adentro, fui parte em todos os níveis de decisão que percorri, do patamar ao topo, conforme a carreira e em três bancos. Por isso, estupefacto, incrédulo e perplexo, ouvi um antigo presidente da CGD responder, num quase sussurro de pedido de desculpas, à jornalista que o entrevistava, tal a aflição e incómodo, nunca ter ouvido um só voto de vencido nos conselhos de crédito. Ou seja, sem querer, explicou-nos que as propostas lá chegavam, mas estava tudo feito e compromissado, os membros da comissão (conselho, no caso, já no topo) eram previamente escolhidos (há sempre tolos com a mania da seriedade), já conheciam as operações que subiriam, os votos de decisão/aprovação eram mero proforma para as atas. Foi assim que decisões inqualificáveis porque criminosas alimentaram uma corrupção grassante, até as propostas, sancionadas com pareceres negativos das comissões de risco e níveis inferiores de decisão, passaram no crivo. E, por tudo isto, o Estado (nós todos) foi esbulhado e espoliado em largos milhares de milhões de euros para justificar o aumento da dívida pública.

O Aliança, o novo partido de Santana Lopes, estará reunido na capital da estepe alentejana, Évora neste fim-de-semana. Não sei que ovo dali irá sair, há em PSL uma forte aposta naquilo que a ciência política chama de charneira, o partido que faz a diferença nos acordos de governação. Quatro a dez centímetros na largura da lombada podem incomodar o seu antigo partido e pai atraiçoado, perfilando-se assim à entrada de uma escapatória que pode ser providencial para António Costa aquando da corrida de fórmula um nas legislativas de outubro. Incomodará todos, desde logo esta geringonça que começa a partir e inquietar. E tão bem começou surpreendendo-nos! Depois, o PSD de Rui Rio e o outro, o dos apaniguados dos muitos montes negros por aí espalhados e apeados ou em vias disso (Viseu, por exemplo, uma mudança de liderança nunca, como agora, seria tão necessária e urgente, basta perder o medo perante o caciquismo). Adoro Viseu, foi aí que estudei, a cidade merece melhor, basta de boiada, compadrio e corrupção (há gente presa, não é uma fake news).

Por isso estas europeias serão importantes, não tanto por aquilo que esperamos da Europa – tal como está, ou também se renova ou não terá remédio -, mas pelo que virá a seguir, este é um tempo de ansiedade e angústia, um quaro de Portugal anda em depressão, já o escrevi, a Europa e o Mundo em profundo rebuliço (veja-se a Venezuela, brutal corrupção, também ali,1.200 generais, no conjunto os 50 Estados Unidos da América têm 700, o que se passa na mártir Venezuela tem a ver com as alianças do petróleo e distribuição dos milhões deste ouro negro e da droga). Já agora, uma consultadoria gratuita: nestas eleições desaparecem o número e o cartão de eleitor, as mesas de voto terão à sua disposição listagens ordenadas pelo nome e onde consta o número de identificação, útil para destrinçar nomes repetidos ou similares. Será testado pela primeira vez o voto eletrónico, procedimento que o MAI quer acompanhar e estudar para facilitar este ato de cidadania fortíssimo a que muitos, infelizmente, não dão o valor e a força devidos. Queixam-se do sistema político, mas não dão uma ajuda para termos uma melhor a mais saudável democracia, democracia que chegue a todos, também ao interior esquecido, despovoado, desprotegido e pobre. Precisamos todos de reagir e resolver.

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