António Gouveia

Postal de Natal e de Boas Festas

Mais um, cumpre-se o calendário. À medida que nele e no meu os dias passam mais céleres do que nunca, percebo melhor que a vida é sucessão de factos, ocorrências, coincidências e circunstâncias, não estamos sozinhos, tudo e todos giram à nossa volta, também o resto do Universo que não sabemos o que é, onde acaba e como funciona. Tal como cada um de nós, formiguinhas universais, radicais livres. Dois amigos que me acompanham no governo da freguesia, a propósito do concurso do postal de Natal que a Junta leva a cabo por esta altura do ano, diziam-me hoje que, em anos anteriores, os alunos das escolas, protagonistas da construção da ideia para a desenharem em folha branca A4 sobre o Natal, pintavam o presépio e que, agora, é o pinheirinho de luzinhas colorinas ou o Pai Natal de barbas, sempre rodeados de muitas prendas, ideia e mensagem de abundância e euforia, de consumismo e fartura, de sucesso ilusório nas lojas e shoppings, longa manus da economia global onde, contas feitas, 1 % dos muito ricos e multimilionários irá arrecadar 30 % da riqueza restando 70 % para redistribuir pelos 99 % de pobres, muito pobres, remediados e mais ou menos ricos (não multimilionários). Foi-se assim a pobreza do presépio, o exemplo de Jesus menino na manjedoura, o bafo quente e húmido do burro e da vaquinha, a lição evangélica de Belém e a verdadeira ideia do Natal, enfim, no pensar destas crianças, estamos ricos, muito ricos. E aqui estamos, ou seja, até a igreja já não é o que era (se calhar nunca foi) nem convence, sempre a ouvimos a pregar a pobreza como sacrifício e desejável submissão, o caminho das pedras para ganhar o céu, a nossa vida era (deveria ser) de provação e purgatório, moeda de troca de uma outra riqueza.

Mas o mundo é agora outro, estamos mais despertos para a realidade da vida, a religião ousa falar em menos subserviência, teoria que foi moda de séculos, distorcida do verdadeiro evangelho de Jesus cristo, deu lugar a um novo despertar, o Papa Francisco vai envelhecendo e lutando, quiçá também desalentado na tentativa de rejuvenescer e arejar mentes ainda voltadas para o passado, fascistas e conservadoras, bem instaladas na cúria vaticana e não só. Também a Europa já não é o que era, nem Paris o farol do mundo, cidade vandalizada pelos coletes amarelos, os novos sans culottes séc. XXI, outros mundos se levantam e se afirmam, é uma Europa cada vez mais desiludida e desgastada, algo vencida e também desalentada, sem lideranças capazes e prestáveis. O Reino Unido segue dividido e ameaçado por um Brexit de consequências graves, contrato péssimo para as partes. É da história que a Inglaterra sempre se portou de forma oportunista, nós que o digamos, a má diplomacia do mapa cor de rosa ditou a morte de D. Carlos; o tratado de Methween, panos e trapos em troca de bons vinhos foi mau para Portugal; e a fuga de D. João VI para o Brasil, já aqui o referi, uma oportunidade de poder e esbulho não desperdiçados. A Itália, a braços com dívida monstruosa e uma economia destroçada não se sabe para onde vai. Por cá, muitas greves, uma loucura insensata, passe o pleonasmo, como se a dívida pública tivesse diminuído com o pagamento ao FMI e não tivesse ultrapassado já a fasquia dos 250mM€, mais o BCE a avisar-nos que não há mais pronto socorro e terminaram as taxas baixas.

Enfim, este é o Natal 2018, natal ilusório e embusteiro, um dia destes os meninos e meninas de Ramalde lá terão de voltar as cabecitas para a humildade e pobreza do presépio, da gruta e da manjedoura, da palha húmida aquecida pela natureza ecológica, esquecer de novo o Pai Natal e as prendas, o ouro, incenso e mirra, as mesmas figuras e quadros bíblicos. É a construção de mais uma torre babélica, falamos, pregamos e argumentamos e já ninguém se entende,   gostamos de meter o bedelho, professores, juristas, economistas, engenheiros e advogados, confundimos o regimento com a lei, a burocracia e os formalismos com o bom senso, o saber com o fazer, a teoria com a prática, a eficiência do objeto com a eficácia do objetivo, todos imbuídos de uma certa “ingenuidade, laxismo e da tradicional moleza que nos corre nas veias”, li na entrevista do procurador agora jubilado Euclides Dâmaso no Expresso, “povo de brandos costumes”. Melhor mesmo é voltar ao presépio e pedir ao Jesus menino feito velho de 2018 anos, que nos ajude, a fé e a esperança nEle sempre nos hão-de salvar. Bom Natal e Bom Ano para todos.

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