António Gouveia
O Homem é por natureza um animal político
A frase em título é de Aristóteles (384-322 a.C.) escrita no seu livro “Política” (Politeia em grego), curiosamente, o mesmo título de um outro livro do seu mestre Platão (428-348 a.C.) mais conhecido por “República”, um e outro ainda hoje estudados nas academias de todo o mundo, 2.450 anos passados. Convém referir que o termo Homem é aqui polissémico, apesar de a mulher ser então considerada um ente inferior, sem direito a voto, tal como os escravos, os jovens e outros homens sem qualificações ou riqueza censitária. Nesta conformidade, num tempo em que o pensamento, a liberdade, a democracia e a ciência atingem níveis de conhecimento nunca antes imaginados, o termo “pessoa” (feminino, por mero acaso ou nem tanto) teria maior razão de ser, é um feminino abrangente, tal como mulher, pau para toda a obra, também para a conceção. Os antigos gregos e romanos anteciparam a frágil questão do sexo, nas suas línguas, além do género masculino e feminino, tinham ainda o neutro, assim denominavam nomes quando confrontados com dificuldades de catalogação. Mas “pessoa” não concordaria com “animal”, nome masculino, bruto e insensível, portanto. Não sendo eu adepto do feminismo, do machismo ou de qualquer luta de géneros e guerra de sexos, posso afirmar que sem as mulheres, nós os homens “por natureza animais políticos”, seríamos muito infelizes. Porque gosto de observar e apreciar as mulheres, posso, com a idade que já levo, concluir que, nos últimos 50 anos, sem quase dar por isso, nesta maratona de vida, elas nos ultrapassaram pela esquerda e pela direita, deixando-nos para trás e a milhas, compensando o passar de séculos. Aceito-o sem reservas, não me importo, precisamos de “pessoas” que abanem e puxem pelo pelotão, não sou machista nem orgulhoso, apenas pragmático.
Direi, como Aristóteles, com quem concordo e corrijo, o contexto é bem diferente: todos somos por natureza, homens e mulheres, pessoas políticas, gostamos de viver em sociedade por questão de oportunismo, é um facto, mas muito positivo, aliás, somos todos e todas (ou quase) pessoas individualistas e egoístas, oportunistas por gostarmos de viver bem sem olhar os que vivem mal, conviver e conversar, sobretudo à volta de uma boa e bem sortida mesa sem repartir. E sabemos que, assim juntos e unidos, conseguimos defender-nos melhor das feras, dos nossos inimigos, da inclemência das intempéries e catástrofes, logrando os nossos objetivos mais difíceis. Ainda por instinto de procriação, a espécie humana deve perdurar séculos como até hoje aconteceu porque todos, sem exceção, mulheres e homens, não somos demais para construir as várias sociedades de que fazemos parte e as que se avizinham, esta já não é uma questão de oportunismo mas de solidariedade e altruísmo, bondade que ultrapassa egoísmos inatos que a natureza inacabada, na sua genética galopante, não conseguiu ainda completar.
Ou seja, somos animais políticos tendencialmente racionais e inteligentes, por isso aqui chegámos e aqui estamos, o que é muito bom. E muitos mais virão se não perdermos o tino. Ora, se assim é, não se percebe a tolice e flagrante ignorância da história e falta de inteligência atroz de muitas pessoas afirmarem não gostar nem de política nem de políticos. Não se gosta do que se não conhece, pois se ela, a política, é a arte mais nobre e mais solidária porque ao serviço de todos, das comunidades e das nações, da nossa casa comum. Dirão elas, corrigindo: não gostamos é dos maus políticos, desta política corrupta, esbanjadora de recursos, incompetente e distraída, destas greves conduzidas por dezenas de sindicatos que abundam e se repetem na organização pública e política, juízes, estivadores, professores, por aí a cabo. Por que não também um sindicato dos contribuintes a quem a lei permitisse fazer greve ao pagamento de impostos, IRS, IMI, IVA, sobre os a energia e produtos petrolíferos? Não foi Salazar que inventou licenças de utilização de isqueiros, qual a diferença? Seria mais um sindicato constitucional na defesa das liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos, afinal a democracia é (deve ser) para todos. Ou vivemos numa ditadura encapotada? Se é democracia, está apodrecida, precisa de revitalização, de mais mulheres na sua organização, têm sensibilidade para os problemas, são boas governantas, mais sensatas, abnegadas e trabalhadoras. Foi o que fui observando desde que para elas ousei levantar os olhos, primeiro com devoção e respeito, a minha mãe e, mais tarde, já adolescente, para outras com mais ou menos vergonha, mais ou menos entusiasmo, amizade e amor.
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