António Gouveia

O que passou, passou! – respondeu o Sr. Francisco de Ventosa

Fim-de-semana maior, luto e saudade dos nossos mortos, lembro-me da frase de Manuel Francisco, da freguesia de Ventosa, nas faldas do (nosso) Caramulo. Foi há uma ano num trabalho fotojornalístico meritório do Público, pena ou tecla de Patrícia Carvalho (que publicou agora em livro) e olhar perscrutador de Adriano Miranda, uma foto que lhe valeu o prémio da Gazeta e agora completado e comparado por Maria João Lopes. “O que passou, passou!” – respondeu ele como que a dizer que dramas, fatalidades e tragédias são para esquecer. Mas foi a sua imagem de idoso alquebrado, andrajoso e mal-amanhado na barba de muitos dias, encostado ao seu cajado esguio, olhos vermelhos de dor e inchados de desalento, depois do rescaldo do incêndio que esventrou, queimou caibros e destelhou a sua humilde casa, com mortes e feridos à mistura, um inferno, nessa foto e crónica, quadros de tragédia que seduziram a memória de Adriano e leitores do Público, tonando-a viral, não num sentido infecioso, virulento mas de contágio e propagação célere e afetuoso de boas consciências. No podcast entre PC e AM dizem tratar-se de um quadro bíblico; concordo, o que vi era a imagem de um Job paciente e resignado, a querer esquecer o seu drama, cruel e imerecido, trabalhara tantos anos, tanta devoção e tamanho amor pela natureza e espírito de cidadania a troco de quase nada como só um agricultor das serranias deste Portugal sabe fazer, produzindo apesar do sol ou da chuva, do frio ou calor e suor, alentado e entusiasmado pelas primaveras floridas, loendros ou giestas amarelas, colheitas de outonos abençoados e invernias pejadas de neve, ventos e frio e muito, muitos sacrifícios. Espécie em vias de extinção, sabemo-lo todos e não ligamos, este mundo tecnológico, apressado, fulgente e urgente seduz-nos mais. Adriano disse tratar-se de um quadro do salazarismo (provavelmente julga que os males deste país têm nele raízes), observação que ela não confirmou e eu desminto. Como se podem associar quadros sociais assim se, como o analfabetismo, ainda permanecem, mais 40 anos pós salazarismo, num tempo que nada falta a muitos?  Será um problema de regimes ou de pessoas?

Mas muito do que passou, ao contrário, deixa em nós saudades profundas e exemplos de vida e então o que passou não passa, persiste e permanece na nossa memória. Dois exemplos diferentes, duas vidas prodigiosas: Helena Ramos, de V. Cambra/S. Vouga, passou, mas não passa, dela teremos sempre boas recordações, memória e saudade, da sua beleza e maneira de ser, inteligência, e luta discreta perante o drama que a levou e dor que deixou. Ou, outra mulher de garra – perdoem a indiscrição, desculpem o amor dos filhos, o meu, de meu irmão e duas irmãs – outra mulher da beira, a nossa mãe, a Celeste Castanheira, também ela nascida e criada até aos 12 anos nas faldas do Caramulo em S. Tiaguinho e na antiga escola de Cajadães onde fez a 4.ª classe com distinção (o antigo quadro de honra), terra dos nossos avós também agricultores, heróis de vida e de exemplo. Casou em 44 e nasci eu três meses depois, sabe Deus o pavor e a dor perante os respeitos humanos de então, vendo partir, mobilizado na II GG para Moçambique, logo a seguir, o homem da sua vida, o Luíz Gouveia; e, depois, de novo aos 32 anos para ali morrer aos 36 anos – malhas que o império tece! – e não mais esqueceu até há dois meses, partiu agora com 95 anos, correu seca e meca para o reencontrar porque não o viu partir. Pergunto eu e muitos como eu, neste dia dos nossos mortos: O que passou, passou? Não, por certo, são todos dramas e tragédias, é um facto; mas estes deixam dor e saudade, é também um incêndio devorador e feroz, destelha-nos a memória, esventra-nos a consciência, devora-nos a alma.

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