António Gouveia
Prudência em fim de ciclo económico
“Decerto nenhuma sociedade pode ser próspera e feliz quando a grande maioria dos seus membros é pobre e miserável” (Adam Smith, 1723-1790)
Em janeiro 2017, aquando do Fórum Económico Mundial em Davos, o seu fundador já ancião Klaus Schwab convidava todos os países a “governar com bússola e radar através de uma liderança sensível e responsável” por estarmos (então) a viver um tempo de incertezas e de profundas mudanças. As climáticas, todos assobiamos para o ar, mas as consequências são já bem visíveis. Na mesma altura, o presidente argentino Maurício Macri dizia que “a educação é a principal ferramenta de inclusão, tendo também em conta a tecnologia”. O Fórum expôs os grandes desafios do ano, face ao Brexit e vitória de Trump, duas decisões que não deveriam ser minimizadas pela Europa dada a realidade e fragilidade mundial, entre outras: i)- o comércio internacional, após o pico anormal de crescimento de 2011 forçado pela crise de 2008, teria tendência a debilitar-se; ii) – a energia solar estava mais barata que nunca; iii) – a diminuição demográfica na Europa acentuava-se face à África com cada vez mais jovens mas muita pobreza, sobretudo na região subsaariana com 41 % dos 766 milhões de pobres em todo o mundo, em contraciclo com o resto do mundo onde a pobreza extrema diminuiu como nunca aconteceu na história; iv) – necessidade da criação de 600 milhões empregos a nível mundial até 2027, para acabar com o desemprego juvenil; v) – uma em cada três pessoas não tem acesso a um banho (2.400 milhões não sabem o que é um bidé e 1.000 milhões faz as necessidades ao ar livre) mais problemas de falta de saneamento e abastecimento de água, muitos devido à sua escassez.
Porém, o que mais me prendeu a atenção, quando li as conclusões deste Fórum e agora as fui repescar para poder redigir esta crónica, foi Schwab ter comparado Silicon Valley (EEUU, portanto) com a Europa, afirmando que ali “tudo o que não está proibido, está permitido”, isto é, o comércio e a indústria americanos são mais flexíveis e práticos na hora de vender e exportar do que a Europa onde legisladores burocratas de Bruxelas distorcem esta máxima: “tudo o que não está explicitamente permitido, está proibido”. Esta diferença adverbial, abismal e brutal do conceito prejudica os exportadores e todos os cidadãos europeus veremos atrofiarem-se os valores do comércio internacional quando Trump nos mostra as unhas na declaração de guerra à China e outros países e introduz taxas aduaneiras nas transações de mercadorias e matérias primas como o alumínio e o aço, justificando assim o grito de guerra lançado logo na sua tomada de posse: America, first. Parece bronco e estúpido, mas não o devemos subestimar. É tão bom como Putin, outro dos donos do mundo, o único senhor com direito a guarda-chuva.
Aqui chegado, percebe-se que também o governo da “geringonça” começa a esgotar a sua capacidade de liderança, apesar de estar praticamente aprovado o OE 2019 e, eventualmente, o BE entrar para o Governo após as eleições. O que é bom, convenho eu, não há como meter as mãos na massa e perceber que, afinal, não é assim tao fácil cozinhar um bom prato e toná-lo apetitoso com os ingredientes e especiarias adequados a quem o irá comer, ou seja, refrear assim o entusiasmo da retórica barata e inconsequente. No final 2016 o Governo pôs de parte “a bússola e o radar”, entusiasmado com o sucesso e controlo dos défices mais o combate ao desemprego e a sua sensibilidade e responsabilidade cedendo aos caprichos do PCP e satélites, malbaratando o que de positivo fez em dois anos, e permitindo que as contas públicas resvalassem perigosamente em 2018 e a dívida pública ultrapassasse os 250 mil milhões de euros. Com os efeitos dessa decisão estúpida da diminuição para as 35 horas na função pública ainda por avaliar. Mas pouco ou nada fez para atacar os dois grandes desperdícios de que é vítima a economia portuguesa e a deixa num estado de anemia perigoso: a corrupção, por um lado, e a incapacidade da máquina da administração pública estatal em gerir com competência os serviços, mancomunada com muitos eleitos que presidem aos vários órgãos executivos (autarcas incluídos) que, salvo honrosas exceções, não possuem formação na área da gestão e pouco percebem de finanças públicas, limitando-se a um copy paste dos orçamentos – a manta é curta, dizem e têm razão – ou não têm devido a uma incapacidade inaceitável de planeamento a médio prazo e de inovação a todo o tempo, insistindo (mal) em mais do mesmo, governando para a eleição seguinte. Ora, se a corrupção deu conta de milhares de milhões de euros, um desperdício, às manápulas de nomes sonantes que tudo fazem para adiar a prisão, que dizer dos milhares de milhões de euros de juros cobrados anualmente pela dívida, outro desperdício com efeitos em pobreza e causa próprias e enriquecimento em causa e proveito alheios?
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