António Gouveia

Num destes sábados, em Oliveira…

Sempre ouvi dizer – e acreditei piamente, os mais velhos é que sabiam, hoje já não sei se deve ser assim tanta a falta de vergonha – que “a roupa suja se lava em casa”, isto é, as misérias de família não são para discutir cá fora, uma vergonha os outros saberem os nossos podres, como se eles próprios não tivessem misérias para escabulhar ou escalrachos a retirar. Galracho era coisa má que que se mistura com outras boas, uma planta herbácea vivaz que prejudica as sementeiras como me explicou um dia o meu avô Adelino, agricultor de S. Tiaguinho, o mesmo que, sei lá porquê, o exército desencantou e, juntamente com o outro avô, mandaram passear até França engrossando o batalhão dos perdedores da batalha de La Lys. Pois bem, foram precisos estes anos todos – e já são muitos, tantos que que lhes quero perder a conta, não me dá jeito nenhum nem arranjo tempo para contá-los – que, afinal, a roupa suja e encardida, naquele tempo, lavava-se nas pedras mais polidas dos açudes e das poldras, isto é, fora de casa, não havia máquinas de lavar nem lavandarias. Ainda me lembro das pedras do açude da corga, em jeito oblíquo para a água escorrer melhor, ao pé do quintal da D. Inedina,  passando ao lado do edifício do tribunal, onde estagiei, albergue da câmara, do registo civil e predial, do cartório notarial, das finanças e de outras repartições que não se perderam com o tempo, bem ao contrário, os que ali trabalhavam, esses foram-se e eram bons amigos, apenas se sofisticando processos e procedimentos na razão proporcional do tempo preciso, eu que o diga, meio perdido nestas mesmas burocracias de roupa suja e encardida, agora esfregadas e   escorridas a computador, muito bem protegidas enquanto bases de dados que ninguém lhe deve chegar exceto o Google, o Facebook, a Apple, a CIA, o FBI, o KGB, sei lá quantas mais inteligências que, nos seus gabinetes se debruçam sobre tanto escalracho das vidas pessoais e políticas.

Deixemos então escalracho – sobre ele já escreveu a Clara Ferreira Alves na sua “Pluma Caprichosa” este sábado, um belo texto a propósito das “trapalhadas dos políticos portugueses, história de misérias num país de pobrezinhos e indigentes”, mais ou menos por esta ordem, sobre “aquela cena da mulher de César”, por acaso açoriano, poderia ser continental, a cartilha do oportunismo e da esperteza são iguais. Mas adiante, falarei dos amigos que me convidaram para almoçar numa das minhas costumadas digressões à terra, sábado chuviscoso e, porque não, seguido das visitas piedosas e obrigatórias do costume: à mãe Celeste, no internato do lar da vila; à tia Lurdes, no internato caseiro, na viela da sua felicidade, 89 anos nas preocupações do cebolo; à tia Emília, apoquentada, a soltura não a  há oito dias, no belíssimo internato do lar de Cambra  (pena a falta de sinalética na porta de entrada, nem todos somos de Cambra,  deixei recado, o local das visitas é outra porta lá para o fundo e nem se vê). Depois, ainda tive tempo para assistir à assembleia dos Bombeiros na sua sede provisória que, disseram-me, fora um castigo conseguir poiso enquanto as obras do quartel decorrem. Não fora a mudança política – há voltas que chegam por bem e no sentido certo, o dos ponteiros do relógio – não haveria obras, quiçá, dinheiro. O presidente da Assembleia, Carlos Rodrigues, fez questão de puxar dos nossos currículos, o meu e o do meu irmão, mais aprimorado e lesto, era uma honra, disse o Carlos, ter-nos ali na velha escola que já não frequentei, mas tínhamos varrido centenas de vezes as suas salas, na época das férias, nossa mãe, quatro filhos para criar, outros afazeres. Na altura, miúdo ainda, não achava piada nenhuma ao currículo, sabia-me mais a castigo, isto é, cadastro. Hoje, passados tantos anos, percebo que foi, de facto, uma das muitas peças importantes no relatório das façanhas da minha vida, o tal curriculum vitae. Como assim, a juventude de hoje, proibida pelas leis do trabalho infantil, nunca poderá exibir currículos tão abrangentes como os dos jovens da nossa geração.

Gostei ainda de saber que, se Deus quiser, teremos quartel novo não faltará muito, vi no balanço meio milhão de euros – o presidente Armando Bento asseverou-o -, para, através do POSEUR, poder reabilitar e requalificar o atual quartel, as obras estão em movimento. Não estávamos muitos na assembleia e tenho pena, homens e mulheres que carregam nos ombros este esforço de fazer política (boa política, da má e corrupta já chega), que levam as associações ao ponto que merecem, mantendo a herança dos nossos antepassados, por isso também chamadas instituições, por permitirem, na ordem social fundada, a permanência e a duração da sociedade, ainda que não imutáveis, antes, sempre variando, com mais ou menos vagar conforme os seus corpos sociais. Oliveira de Frades tem passado, tem instituições, religiosas e civis, além desta, a da Misericórdia, a Banda de Música (que já foi dos BV), o Grupo Desportivo, infelizmente já não tem o Hospital (aqui o tempo andou para trás dezenas de anos) e tantas outras. O movimento associativo deve voltar aos tempos antigos, tempos de partilha e de solidariedade, foram as associações que, no passado, deram a mão a tanta gente. AH! Vamos lá fazer um pequeno esforço para pagar as quotas, não é assim tanto, quase dois mil sócios é um número bonito. Não há sócios “não efetivos”, disse eu, não conta dos estatutos, ou se é sócio ou não.

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