António Gouveia

Distraídos ou nem por isso?

Andamos todos distraídos ou nem por isso? A democracia funciona ou nem por isso? É Putin e Trump e as suas ligas (Delos e Peloponeso) que mandam no mundo, como se tem verificado na Síria, ou nem por isso? Ou será mesmo Xi Jinping, (agora) o líder eterno do (ainda) país mais populoso da Terra? Pedrógão repetir-se-á no verão ou nem por isso? A população da baixa pombalina, de Lisboa, e da ribeira, no Porto, abandonará as freguesias de sempre, assediadas pelo vil metal (outra forma de corrupção) ou despejadas escandalosamente por uma lei de arrendamento que não as protege do alojamento local e ganância de novos ricos, turistas torna viagem, transmutados em alfacinhas e tripeiros de segunda, donos também de segunda habitação escolhida no 5.o melhor país do mundo? Bruno de Carvalho irá esbarrondar e destruir o Sporting Clube de Portugal, coisa de somenos, é certo, mas muito feia? Outras interrogações poderiam aqui caber, fica só mais esta em jeito de conclusão: a política (enquanto governação); a cidadania (soma dos direitos e deveres); a justiça (totalidade das regras e leis); e a democracia (organização do poder) ainda funcionam ou nem por isso?

Se observarmos o panorama político-partidário, percebemos: assistimos a um tempo de pressa e mudança, os partidos andam em bolandas e fase de reestruturação com destaque para o PSD, muitas escaramuças (não passam disso mesmo) face a um novo líder que, como sabemos, não é pera doce, cidadão com pouca paciência para artimanhas e com a lucidez suficiente para saber onde apontar o foco da lanterna, as grandes reformas num país delas carente há muitos anos: forte descentralização e melhor distribuição dos fundos comunitários; melhor administração pública e mais eficaz; segurança social mais atenta aos pobres e IPSS; melhor justiça e mais célere; diminuição da dívida pública com regularização do serviço da dívida e diminuição da fatura dos juros; economia mais produtiva e competitiva, as mais importantes, num comércio que é a mãe de todas as batalhas. Como outras interrogações atrás referidas, todas as respostas, sejam quais forem, terão sentido, logo veremos o futuro. Mas este depende de nós e da nossa atenção, se confiarmos, apesar dos percalços, na democracia que temos onde temos de ser parte ativa e atuante. De facto, se não podemos governar todos – e não podemos, é impossível -, devemos eleger os mais capazes independentemente de ideologias, um chão que deu uvas, construir o Portugal que temos, mas melhor, como outros o fizera antes, o conhecimento, juventude dos novos e a experiência dos velhos poderão fazer a diferença. Ou, como disse Rui Rio, eleger gente com “credibilidade que é o somatório de três fatores, seriedade, coragem e competência”.

Uma frase bomba de Michael Ash, professor na Universidade de Massachusetts, nos EUA, li hoje no Expresso: “O sistema financeiro continua a armazenar gasolina no celeiro”. É verdade, sei do que ele fala pois andei por lá, ainda hoje torço o nariz às muitas asneiras que a banca fez (fizemos) no passado.  Ninguém nos explica a razão dos quase 4mM€ da CGD para resgatar o balanço e reparar o rombo das muitas imparidades. E o povo, desde sempre zurzido nos impostos, merecia conhecer que créditos são estes e como puderam ser autorizados sem as garantias que qualquer decisor de crédito tem obrigação de exigir em muitos milhares de milhões de euros que chutaram o défice de Centeno na percentagem e rácio de sempre depois do 25 de abril, 0,9 por cento para 3por cento, a meta limite. Ninguém nos diz porque os políticos encobrem-se uns aos outros (e correligionários), apesar do Lula, o bloco central dos “interesses privados” (leia-se PS, PSD e CDS) tem aqui graves culpas e falhas, a razão de não nos dizerem o nome dos amigos, companheiros e camaradas. Mas sabemos o nome de alguns, políticos, banqueiros e empresários, valeria a pena repeti-los para vergonha desses decisores e devedores. Pior mesmo é a banca não aprender a lição, já anda por aí feita tolinha a financiar a torto e a direito imobiliário e consumo. Se a bolha estourar de novo, não se admirem. Se acabar o turismo e os hotéis, hostel e motéis falirem, não se admirem. Se voltarmos a um novo período de austeridade, não se admirem. Não vem aí o Diabo porque, aprendi-o na catequese quando era menino e moço, ele e Deus sempre estiveram connosco, são dogmas eternos de um mundo em construção, desta sociedade em evolução, nesta natureza inacabada de que todos fazemos parte com os nossos vícios e virtudes, uma consequência da genética (ADN) herdada.

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